Sair para caminhar, correr ou pedalar logo ao acordar, antes do café da manhã, tornou-se uma estratégia comum entre quem deseja emagrecer. A lógica parece simples: sem alimento disponível, o organismo recorreria às reservas de gordura para produzir energia. Mas será que isso realmente acontece?
A resposta é sim, mas com algumas ressalvas importantes. Durante o exercício realizado em jejum, o corpo realmente tende a utilizar uma proporção maior de gordura como combustível. Entretanto, isso não significa automaticamente uma perda de gordura corporal maior ao longo do tempo.
Tudo depende da intensidade do treino, da alimentação nas horas seguintes e do equilíbrio energético diário.
O corpo muda de combustível quando o estoque de glicose diminui
Após várias horas sem comer, os níveis de insulina ficam mais baixos e parte das reservas de glicogênio, principalmente do fígado, já foi utilizada para manter a glicose sanguínea.
Quando o exercício começa, o organismo precisa continuar produzindo energia. Dependendo da intensidade da atividade, ele passa a aumentar o uso dos ácidos graxos armazenados no tecido adiposo, reduzindo proporcionalmente o consumo de carboidratos.
Essa mudança é conhecida como flexibilidade metabólica, uma capacidade natural do organismo de alternar diferentes fontes de energia conforme a necessidade.
Em atividades leves ou moderadas, essa utilização de gordura costuma ser mais evidente.
Usar mais gordura como energia não garante uma perda de peso maior
Essa é uma das maiores dúvidas entre quem pratica atividade física em jejum. Embora o organismo passe a utilizar uma proporção maior de gordura como fonte de energia durante o exercício, isso não significa, por si só, que haverá um emagrecimento mais rápido.
A redução da gordura corporal depende principalmente do déficit calórico mantido ao longo do tempo, resultado do equilíbrio entre as calorias consumidas e as gastas diariamente, e não apenas da fonte de combustível utilizada em uma sessão de treino.
Além disso, treinar sem se alimentar previamente pode diminuir o desempenho de algumas pessoas, especialmente quando a atividade é intensa ou tem longa duração, o que pode comprometer a qualidade do exercício realizado.
Estudo ajuda a entender a troca de combustível que acontece durante o treino
Uma pesquisa publicada na revista científica Frontiers in Physiology, em 15 de janeiro de 2026, liderada por Yongbo Wang, investigou como o organismo utiliza diferentes fontes de energia durante um treino do protocolo Tabata realizado em jejum ou após o café da manhã.
Os pesquisadores observaram que as participantes que realizaram o exercício em jejum apresentaram maior oxidação de gordura durante a atividade física, enquanto aquelas que treinaram após a refeição utilizaram mais carboidratos como fonte energética. Apesar dessa diferença no combustível empregado durante o exercício, os resultados mostram que o estado nutricional modifica o metabolismo agudamente, sem indicar, por si só, uma perda de gordura corporal superior em longo prazo.
O melhor treino é aquele que pode ser mantido
Para algumas pessoas, treinar em jejum é confortável e faz parte da rotina. Para outras, pode causar queda de desempenho, tontura ou fadiga precoce.
Independentemente do horário da alimentação, os fatores que mais influenciam os resultados continuam sendo:
- Regularidade dos treinos.
- Alimentação equilibrada.
- Sono de qualidade.
- Recuperação adequada.
Treinar em jejum realmente aumenta a participação da gordura como combustível durante o exercício, especialmente em atividades de intensidade leve a moderada. Porém, isso não significa que o emagrecimento será maior. O resultado final depende do conjunto dos hábitos adotados ao longo do tempo, e não apenas do momento em que a atividade física é realizada.
