Para muitas pessoas, o ritual parece inofensivo: terminar o almoço e tomar uma xícara de chá como forma de ajudar na digestão ou complementar a rotina de emagrecimento. O hábito ganhou popularidade principalmente entre quem busca bebidas naturais, com menos calorias e associadas a benefícios metabólicos.
Porém, existe um detalhe que merece atenção: alguns tipos de chá podem interferir na absorção de ferro quando consumidos próximos das refeições. O problema não está necessariamente na bebida em si, mas no momento escolhido para ingeri-la.
Esse efeito está relacionado aos polifenóis, substâncias presentes naturalmente em diferentes variedades de chá, como o verde, o preto e algumas infusões de plantas. Essas substâncias podem se ligar ao ferro presente nos alimentos, reduzindo sua disponibilidade para ser absorvido pelo organismo.
Em pessoas com boas reservas desse mineral, o impacto geralmente é pequeno. Entretanto, para indivíduos com maior risco de deficiência, esse hábito frequente pode contribuir para uma redução progressiva dos estoques de ferro.
O encontro entre o chá e o ferro acontece no intestino
O ferro é um mineral essencial para a produção de hemoglobina, proteína responsável pelo transporte de oxigênio no sangue. Quando os níveis desse nutriente diminuem, o organismo pode apresentar sinais como cansaço, fraqueza e queda de rendimento físico.
O efeito dos chás ocorre principalmente sobre o chamado ferro não heme, encontrado em alimentos de origem vegetal, como:
- feijão;
- lentilha;
- grão-de-bico;
- verduras verde-escuras;
- sementes e cereais.
Os compostos fenólicos presentes em algumas bebidas podem formar ligações com esse tipo de ferro no sistema digestivo, dificultando sua absorção.
Estudo clínico mostra que o intervalo entre refeição e chá faz diferença
Uma pesquisa publicada no The American Journal of Clinical Nutrition, em dezembro de 2017, liderada por Salma F. Ahmad Fuzi, avaliou como o consumo de chá próximo a uma refeição interfere na absorção de ferro em mulheres saudáveis.
O estudo utilizou um método com isótopos estáveis de ferro para medir a absorção do mineral após diferentes situações de consumo. Os pesquisadores observaram que tomar chá junto com a refeição reduziu a absorção do ferro não heme, enquanto manter um intervalo de aproximadamente uma hora entre a refeição e a bebida diminuiu esse efeito.
Os resultados indicam que o horário de consumo pode ser um fator importante, principalmente para pessoas que dependem mais das fontes vegetais de ferro ou já apresentam risco aumentado de deficiência.
A deficiência de ferro pode se desenvolver silenciosamente
A falta desse mineral nem sempre apresenta sintomas claros no início. Muitas pessoas associam sinais iniciais apenas ao estresse ou à rotina intensa.
Entre os possíveis sinais estão:
- cansaço persistente;
- falta de disposição;
- dificuldade de concentração;
- palidez;
- queda do desempenho físico.
Quando a deficiência evolui, pode ocorrer a chamada anemia por deficiência de ferro, condição que compromete a produção adequada de células vermelhas do sangue.
Não é preciso abandonar o chá, apenas ajustar o momento
Os chás continuam podendo fazer parte de uma alimentação equilibrada. Muitas variedades apresentam compostos bioativos interessantes e podem ser consumidas com segurança pela maioria das pessoas.
A recomendação mais simples é evitar tomar grandes quantidades de chás ricos em polifenóis imediatamente após as principais refeições, especialmente quando a alimentação já possui pouco ferro.
Algumas estratégias ajudam a melhorar o aproveitamento desse mineral:
- aguardar cerca de uma hora após comer antes de tomar chá;
- associar alimentos vegetais ricos em ferro a fontes de vitamina C para melhorar o aproveitamento desse mineral.
- variar as fontes alimentares ao longo do dia.
O chá não é um vilão, mas o momento em que ele aparece na rotina pode influenciar a absorção de nutrientes importantes. Pequenas mudanças de hábito podem ajudar a preservar os estoques de ferro e evitar problemas que se desenvolvem de forma silenciosa.
