Terremotos lunares podem revelar gelo escondido e mudar a exploração da Lua 

Luz rasante revela crateras que preservam bilhões de anos da história geológica da Lua. (Imagem: NASA)

A Lua continua surpreendendo a ciência. Muito além de crateras e paisagens áridas, o satélite natural pode esconder reservas importantes de gelo de água abaixo da superfície. Agora, uma nova pesquisa indica que os chamados terremotos lunares, ou sismos lunares, podem funcionar como uma ferramenta capaz de localizar esses depósitos invisíveis, abrindo caminho para futuras missões espaciais e oferecendo novas pistas sobre a origem da água na Terra.

O estudo, publicado por Harrison P. Lisabeth na revista científica Science Advances, em 2026, demonstra que as ondas sísmicas se comportam de maneira diferente ao atravessar regiões congeladas da Lua. Essa característica poderá permitir que cientistas identifiquem áreas ricas em gelo sem a necessidade de escavações extensas.

O gelo lunar pode ser muito mais valioso do que parece

A existência de água congelada na Lua já é considerada uma forte possibilidade, especialmente nas crateras próximas ao polo sul lunar, onde a luz solar praticamente nunca alcança o solo. Nessas regiões extremamente frias, o gelo pode permanecer preservado durante bilhões de anos.

Localizar esse recurso é estratégico para a exploração espacial. O gelo pode ser utilizado para diversas finalidades, entre elas:

  • Produção de água potável para astronautas.
  • Geração de oxigênio para respiração.
  • Produção de hidrogênio, utilizado como combustível.
  • Redução da quantidade de suprimentos enviados da Terra.

Essas aplicações tornam futuras bases lunares muito mais viáveis, diminuindo significativamente os custos das missões de longa duração.

Como os terremotos podem revelar água escondida

Assim como os terremotos na Terra ajudam geólogos a estudar o interior do planeta, os sismos lunares também produzem ondas capazes de atravessar diferentes camadas do subsolo.

Os pesquisadores descobriram que o gelo aumenta a rigidez do solo lunar, fazendo com que as vibrações viajem entre duas e três vezes mais rápido do que em regiões secas. Além disso, depósitos congelados também refletem parte dessas ondas, criando padrões semelhantes aos ecos observados em exames geofísicos.

Essas assinaturas sísmicas podem indicar não apenas a presença de gelo, mas também fornecer estimativas sobre sua distribuição e quantidade em profundidades que os satélites atualmente não conseguem investigar.

Três abordagens fortaleceram a descoberta

Para validar essa hipótese, a equipe utilizou diferentes métodos científicos.

Primeiramente, foram realizados experimentos com rochas vulcânicas do Arizona, cuja composição lembra a poeira lunar. Após serem congeladas, essas amostras permitiram observar como o gelo ocupa os pequenos espaços existentes entre os grãos minerais.

Em seguida, modelos computacionais identificaram quais crateras do polo sul permaneceram suficientemente frias para conservar gelo durante bilhões de anos.

Por fim, simulações de ondas sísmicas mostraram que depósitos subterrâneos congelados produzem alterações claras na propagação das vibrações. A concordância entre os três métodos fortalece a confiabilidade dos resultados.

O gelo lunar pode contar a história dos oceanos da Terra

Além de sua importância para futuras missões, o gelo preservado na Lua pode funcionar como uma verdadeira cápsula do tempo do Sistema Solar.

Como algumas crateras permanecem congeladas há cerca de quatro bilhões de anos, seus depósitos podem conservar registros químicos praticamente intactos desde os primeiros estágios da formação dos planetas.

Essas informações podem ajudar os cientistas a compreender como a água se distribuiu pelo Sistema Solar primitivo e de que maneira ela chegou ao nosso planeta, contribuindo para a formação dos oceanos e das condições necessárias ao surgimento da vida.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes