Alguns remédios reduzem a produção de saliva e lágrima; entenda o motivo 

Alguns medicamentos podem reduzir a produção de saliva. (Imagem: Fala Ciência)

Boca seca, olhos ardendo e aquela sensação incômoda de que é preciso beber água ou piscar mais vezes podem aparecer por diferentes razões. Medicamentos estão entre as causas possíveis, especialmente quando possuem propriedades anticolinérgicas.

O mecanismo parece complicado, mas pode ser explicado de maneira simples: alguns medicamentos interferem na ação da acetilcolina, uma substância usada pelo sistema nervoso para estimular determinadas glândulas. Como consequência, a produção de saliva e, em alguns casos, de lágrimas pode diminuir.

Isso ajuda a entender por que a chamada xerostomia, ou sensação de boca seca, aparece como efeito adverso em diferentes tratamentos.

Uma mensagem química controla muito mais do que parece

Efeito de medicamentos na umidade oral e ocular. (Imagem: Fala Ciência)

A produção de saliva e lágrimas depende de sinais do sistema nervoso autônomo. Entre os principais mensageiros envolvidos está a acetilcolina, que atua sobre receptores muscarínicos presentes nas glândulas.

Quando um medicamento bloqueia esses receptores, o estímulo para a secreção pode diminuir. O resultado é uma redução da umidade das mucosas.

Na boca, isso pode provocar:

  • Sensação persistente de secura
  • Dificuldade para mastigar ou engolir alimentos secos
  • Alteração do paladar
  • Necessidade de beber líquidos com frequência
  • Maior desconforto na mucosa oral

Nos olhos, a redução da secreção lacrimal pode contribuir para ressecamento, ardência, sensação de areia e irritação.

Nem todo medicamento age exatamente da mesma forma

O efeito anticolinérgico pode aparecer em medicamentos utilizados para diferentes finalidades. Alguns possuem essa propriedade como parte importante de sua ação farmacológica, enquanto outros apresentam efeitos anticolinérgicos como consequência secundária.

Por isso, não existe uma única classe responsável pela boca seca relacionada a medicamentos.

Antidepressivos tricíclicos, determinados medicamentos usados para alergias, alguns tratamentos para problemas urinários e certos fármacos utilizados em doenças neurológicas estão entre os exemplos que podem apresentar propriedades anticolinérgicas.

Além disso, quando uma pessoa utiliza vários medicamentos simultaneamente, os efeitos podem se somar. Esse fenômeno é conhecido como carga anticolinérgica.

A carga de medicamentos pode influenciar a intensidade da boca seca 

Uma pesquisa publicada na revista científica Drugs & Aging em 13 de março de 2026, liderada por Ingrid Beate Ringstad, investigou a relação entre a carga de medicamentos anticolinérgicos e a intensidade da boca seca em adultos mais velhos hospitalizados.

O estudo avaliou 256 pacientes, com idade média de 84 anos. Os pesquisadores observaram que tanto níveis menores quanto níveis elevados de carga anticolinérgica estavam associados a maior intensidade de boca seca, avaliada por medidas que combinavam sintomas relatados e indicadores objetivos de redução da saliva.

Um dos aspectos interessantes foi justamente a presença da associação mesmo em níveis mais baixos de carga anticolinérgica. Isso mostra por que a avaliação dos medicamentos utilizados por uma pessoa pode ser importante quando surge uma queixa persistente de boca seca.

É importante destacar que esse estudo investigou saliva e boca seca, e não a produção de lágrimas. Portanto, seus resultados não devem ser interpretados como uma demonstração direta de que os medicamentos avaliados diminuem a produção lacrimal.

A secura persistente merece atenção

Saliva e lágrimas não servem apenas para causar sensação de conforto. Elas desempenham funções importantes na proteção das superfícies do organismo.

A saliva ajuda na lubrificação da boca, na formação do bolo alimentar e na proteção dos dentes e tecidos orais. Já o filme lacrimal mantém a superfície ocular hidratada e participa da proteção dos olhos.

Por isso, quando a secura aparece de maneira persistente depois do início ou da mudança de um tratamento, vale conversar com o profissional responsável.

Não é recomendável interromper ou modificar um medicamento por conta própria. Em algumas situações, o profissional pode avaliar a possibilidade de ajustar o tratamento ou buscar alternativas com menor efeito anticolinérgico.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn