Rajadas misteriosas do Universo podem revelar onde está a matéria invisível 

Hubble localiza o ambiente de uma das FRBs mais distantes. (Imagem: NASA, ESA, STScI, Alexa Gordon (Northwestern).)

Explosões de rádio que atravessam o Universo durante bilhões de anos podem estar se transformando em uma das ferramentas mais interessantes para investigar a estrutura do cosmos. Conhecidas como rajadas rápidas de rádio, ou FRBs, essas emissões extremamente breves carregam informações sobre a matéria que encontram pelo caminho.

Agora, um estudo publicado na Nature Astronomy mostra que esses sinais podem ajudar a separar os efeitos provocados pelo feedback das galáxias daqueles relacionados à matéria escura, aos neutrinos e à energia escura.

Uma espécie de mapa invisível do Universo

FRBs revelam a matéria invisível do espaço. (Imagem: Fala Ciência)

As FRBs são flashes intensos de ondas de rádio que chegam à Terra depois de percorrer distâncias gigantescas. Embora sua origem ainda seja investigada, alguns desses eventos estão associados a objetos extremamente magnetizados, como magnetares.

Durante a viagem, porém, o sinal não permanece completamente intacto. As ondas interagem com elétrons presentes no material espalhado pelo espaço, provocando um fenômeno conhecido como dispersão.

Quanto maior a quantidade de matéria atravessada, maior tende a ser essa alteração no sinal. Assim, cada FRB funciona como uma espécie de sonda cósmica, fornecendo informações sobre a quantidade e a distribuição da matéria comum entre sua fonte e a Terra.

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Esse detalhe é especialmente valioso porque a matéria bariônica, formada por átomos e partículas comuns, é difícil de mapear em grandes escalas.

Galáxias também bagunçam o cenário cósmico

Existe, entretanto, um problema. A distribuição da matéria no Universo não depende apenas da matéria escura e de outros componentes cosmológicos.

Dentro das galáxias ocorrem processos extremamente energéticos. Buracos negros supermassivos, por exemplo, podem lançar grandes quantidades de gás quente para o ambiente ao redor. Explosões de estrelas também liberam energia e material.

Esse conjunto de fenômenos é conhecido como feedback galáctico e pode espalhar matéria por enormes distâncias, tornando determinadas regiões menos concentradas.

O efeito é importante porque pode produzir uma assinatura parecida com aquela esperada de alguns fenômenos cosmológicos. Dessa forma, sem medir o impacto do feedback separadamente, torna-se mais difícil descobrir qual processo realmente está alterando a distribuição da matéria.

Cerca de 100 FRBs já revelaram uma pista importante

Para investigar essa questão, os pesquisadores analisaram aproximadamente 100 rajadas rápidas de rádio e estudaram como a matéria ao redor das galáxias está distribuída.

Os resultados indicaram que o feedback galáctico realmente reduz a concentração da matéria nas regiões estudadas. Porém, o efeito observado foi menor do que aquele indicado anteriormente por alguns levantamentos astronômicos baseados em raios X e micro-ondas.

Isso é importante porque oferece uma maneira independente de estudar o fenômeno.

Na prática, os FRBs podem ajudar os astrônomos a separar duas coisas que, quando observadas por outros métodos, podem parecer semelhantes:

  • efeitos causados pelo feedback das galáxias;
  • alterações na estrutura cósmica associadas à matéria escura e aos neutrinos.

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Rajadas cósmicas podem se tornar mapas da matéria invisível 

A grande importância do trabalho está justamente nessa capacidade de comparação. Se diferentes instrumentos observam a distribuição da matéria por métodos independentes, fica mais fácil identificar quais alterações pertencem à física das galáxias e quais podem estar relacionadas aos componentes fundamentais do Universo.

O estudo foi publicado por Kritti Sharma e colaboradores em 8 de setembro de 2026, na revista científica Nature Astronomy.

E existe uma perspectiva ainda mais interessante. A análise utilizou apenas uma amostra de cerca de uma centena de FRBs. Com a descoberta de milhares de novas rajadas, os cientistas poderão construir mapas cada vez mais detalhados da matéria existente entre as galáxias.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes