Telescópio capta sinal raro vindo de galáxia distante no universo

Sinal cósmico viajou bilhões de anos e revelou fusão de galáxias distantes (Imagem: Fala Ciência via Gemini)
Sinal cósmico viajou bilhões de anos e revelou fusão de galáxias distantes (Imagem: Fala Ciência via Gemini)

O universo continua revelando fenômenos capazes de desafiar até mesmo os astrônomos mais experientes. Desta vez, um sinal extremamente poderoso, descrito como um verdadeiro “laser natural” cósmico, foi identificado após percorrer cerca de 8 bilhões de anos-luz até chegar à Terra. A descoberta chamou atenção não apenas pela distância impressionante, mas também pela intensidade incomum da emissão.

O registro foi feito com o auxílio do radiotelescópio MeerKAT, localizado na África do Sul, e pode representar uma peça importante para compreender como as galáxias se formam, evoluem e colidem ao longo da história do universo. Além disso, o fenômeno pode ajudar a localizar outros sistemas galácticos em estágios semelhantes. Entre os pontos mais importantes dessa descoberta, destacam-se:

  • A emissão surgiu em um sistema de galáxias em fusão;
  • O fenômeno foi classificado como um megamaser de hidroxila;
  • A intensidade sugere a possibilidade de um raro gigamaser;
  • A observação foi ampliada por uma lente gravitacional.

Quando galáxias colidem, o universo acende sinais poderosos

O sinal teve origem no sistema chamado HATLAS J142935.3–002836, uma região onde duas galáxias estão em processo de fusão. Esse tipo de evento é extremamente energético, pois enormes quantidades de gás e poeira são comprimidas, favorecendo intensa atividade molecular.

É justamente nesse ambiente turbulento que surgem os chamados megamasers, emissões naturais que funcionam de forma semelhante a um laser, porém operando na faixa das micro-ondas e ondas de rádio.

Imagem infravermelha do Hubble mostra H1429-0028 e sua lente gravitacional em destaque (Imagem: Manamela et al., arXiv)
Imagem infravermelha do Hubble mostra o modelo de lente H1429-0028 em destaque (Imagem: Manamela et al., arXiv)

Nesse caso, moléculas como a hidroxila (OH) amplificam a radiação presente no ambiente, gerando um sinal luminoso gigantesco. Em alguns casos, essa emissão pode ser milhões ou até bilhões de vezes mais brilhante que fenômenos semelhantes observados em regiões menores do cosmos.

Por isso, os pesquisadores acreditam que essa detecção pode pertencer a uma categoria ainda mais rara: o chamado gigamaser, considerado ainda mais extremo e energético.

A relatividade de Einstein ajudou a enxergar esse fenômeno

Detectar algo tão distante só foi possível graças a um efeito previsto pela Teoria da Relatividade Geral, de Albert Einstein, conhecido como lente gravitacional.

Esse fenômeno acontece quando uma galáxia localizada entre a Terra e o objeto observado atua como uma espécie de lupa cósmica. Sua gravidade curva o espaço-tempo e amplia a luz ou, nesse caso, a emissão de rádio, vinda de regiões muito distantes.

Sem essa amplificação natural, o sinal provavelmente seria fraco demais para ser identificado pelos instrumentos atuais. Dessa forma, a lente gravitacional funciona como uma poderosa aliada da astronomia moderna.

O que essa descoberta pode revelar sobre o universo

Encontrar um megamaser tão distante permite aos cientistas observar processos que aconteceram bilhões de anos atrás, quando o universo era muito mais jovem. Isso ajuda a reconstruir a história da formação galáctica e entender melhor como estruturas gigantes se desenvolveram com o passar do tempo.

Além disso, essas observações servem como mapas cósmicos, indicando regiões onde novas fusões galácticas podem estar acontecendo. Com isso, a astronomia ganha novas pistas sobre a evolução do cosmos e sobre os mecanismos extremos que moldam o universo até hoje.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes