Uma estrela gigantesca passou anos dando a impressão de que estava prestes a terminar sua vida em uma explosão espetacular. Ela brilhava, diminuía de intensidade e voltava a apresentar novas erupções, em um comportamento que lembrava uma supernova antes da explosão. Agora, observações em raios X revelaram que a história era bem diferente.
O objeto chamado AT 2016blu está a cerca de 29 milhões de anos-luz, na galáxia NGC 4559. Com pelo menos 33 vezes a massa do Sol, ele pertence a uma classe de estrelas extremamente instáveis conhecidas como variáveis azuis luminosas, ou LBVs.
Desde 2012, AT 2016blu apresentou 27 grandes erupções, muitas delas separadas por aproximadamente 113 dias. A repetição fez com que os astrônomos suspeitassem de uma explosão terminal. Entretanto, o novo estudo aponta para uma explicação muito mais intrigante.
Uma estrela que parecia anunciar sua própria morte
As LBVs são estrelas muito massivas que perdem grandes quantidades de matéria e podem apresentar mudanças violentas de brilho. Por isso, algumas são observadas em episódios que lembram fenômenos associados aos estágios finais da vida estelar.
No caso de AT 2016blu, porém, havia um detalhe difícil de ignorar: as erupções continuavam acontecendo.
Siga o canal do Fala Ciência no WhatsApp para receber nossos conteúdos em primeira mão!
Entrar no Canal do WhatsAppSe a estrela estivesse realmente prestes a explodir como supernova, seria esperado que seu comportamento levasse eventualmente a um evento terminal. A repetição das explosões começou, então, a levantar outra possibilidade: a presença de uma segunda estrela em uma órbita muito particular.
Essa hipótese ganhou força quando os pesquisadores conseguiram observar o sistema durante uma nova erupção.
Raios X entregam a presença de um objeto escondido
A equipe acompanhou a previsão de uma nova explosão e, em março de 2026, acionou uma observação de oportunidade com o Observatório de Raios X Chandra. O telescópio detectou uma forte emissão de raios X exatamente durante o período de atividade de AT 2016blu.
O resultado ficou ainda mais interessante quando os dados foram comparados com observações anteriores. O Chandra havia observado a região em 2001 e 2002, quando o sistema ainda não apresentava as mesmas erupções, e não encontrou emissão de raios X da estrela.
Essa diferença fornece uma pista importante. Raios X intensos podem surgir quando matéria de uma estrela é capturada por um objeto compacto. Conforme o material é acelerado e aquecido durante o processo de acreção, ele libera radiação de alta energia.
É justamente esse cenário que os pesquisadores consideram compatível com os dados.
Uma estrela viva alimenta um remanescente estelar
O modelo proposto coloca AT 2016blu em um sistema binário formado por uma estrela extremamente massiva e um objeto compacto, que pode ser uma estrela de nêutrons ou um buraco negro.
A órbita provavelmente é bastante alongada. Assim, quando as duas companheiras se aproximam, a interação facilita a transferência de matéria da estrela gigante para o objeto compacto. O material capturado produz raios X e está associado às grandes erupções observadas.
O estudo estima uma luminosidade em raios X de aproximadamente 4 × 10³⁸ erg por segundo e uma taxa de acreção de pelo menos 8 × 10⁻⁸ massas solares por ano, valores compatíveis com a presença de uma companheira compacta.
Veja mais:
A evidência científica
A descoberta foi apresentada por Mojgan Aghakhanloo, da Universidade da Virgínia, e colaboradores.
O estudo foi disponibilizado no arXiv em 20 de agosto de 2026 e aceito para publicação no The Astrophysical Journal.
A descoberta transforma AT 2016blu em um caso especialmente interessante de binária de raios X de alta massa. Mais do que encontrar uma estrela prestes a explodir, os astrônomos parecem ter encontrado um sistema em que uma estrela ainda viva perde matéria para um remanescente estelar.
E isso abre uma possibilidade ainda maior: outras chamadas “supernovas impostoras” talvez também estejam escondendo companheiras compactas. Novas observações do Chandra e o futuro levantamento do Observatório Vera Rubin poderão ajudar a descobrir quantos desses fenômenos aparentemente explosivos têm, na verdade, uma história binária por trás.
