Por que você lê a mesma frase três vezes e não absorve? A explicação biológica do “brain fog” 

A névoa mental pode dificultar a compreensão durante a leitura. (Imagem: Fala Ciência)

Você termina um parágrafo e percebe que não entendeu quase nada. Volta ao começo, lê novamente e, mesmo assim, parece que as palavras não entram. Esse fenômeno pode acontecer em períodos de cansaço, estresse, sono inadequado ou sobrecarga mental e costuma ser descrito pelo termo em inglês brain fog, ou névoa mental.

Embora a expressão seja popular, ela não corresponde a um diagnóstico médico específico. O termo descreve um conjunto de dificuldades cognitivas que podem envolver atenção, memória, velocidade de processamento e clareza mental.

Cérebro perde o fio da leitura

Para compreender um texto, o cérebro precisa manter a atenção direcionada à informação, processar as palavras e armazenar temporariamente o conteúdo para relacioná-lo às frases seguintes.

Quando a atenção oscila, esse processo fica menos eficiente. Você pode continuar olhando para as palavras, mas parte da informação deixa de ser processada adequadamente. Por isso, a leitura precisa ser repetida.

Além disso, a chamada memória de trabalho tem papel importante. Ela permite manter informações por alguns instantes enquanto o cérebro realiza uma tarefa. Se essa capacidade é prejudicada por fadiga ou distração, acompanhar uma sequência de ideias pode se tornar mais difícil.

A névoa mental não acontece por uma única causa

Infográfico explica as causas da “névoa mental” (brain fog). (Imagem: Fala Ciência)

O brain fog pode aparecer em diferentes situações. Entre os fatores associados a sintomas de dificuldade cognitiva estão:

  • privação ou má qualidade do sono
  • estresse prolongado
  • fadiga mental
  • algumas condições de saúde
  • determinados medicamentos
  • alterações hormonais
  • recuperação de algumas infecções

Por isso, não existe uma única explicação biológica para a sensação de mente “nublada”. O mecanismo depende do contexto em que os sintomas aparecem.

Estudo investigou os sintomas por trás do brain fog

Uma pesquisa publicada na Frontiers in Psychiatry em 5 de março de 2026, liderada pela pesquisadora Maria Loizidou, avaliou a presença de sintomas de brain fog em pessoas com e sem condição pós-COVID-19.

O estudo trabalhou com uma escala específica para avaliar a névoa mental e descreveu o fenômeno como um conjunto heterogêneo de sintomas que pode envolver dificuldades cognitivas, fadiga mental e redução da clareza mental. A pesquisa também buscou validar uma versão da ferramenta para avaliar esses sintomas de maneira estruturada.

Esse resultado é relevante porque ajuda a separar a expressão popular de um diagnóstico único. Brain fog é uma descrição de sintomas, não uma doença isolada.

Há maneiras simples de favorecer a clareza mental

Quando a dificuldade de concentração está relacionada a fatores cotidianos, alguns hábitos podem ajudar o cérebro a funcionar em melhores condições:

  • manter uma rotina de sono adequada;
  • fazer pausas durante períodos prolongados de estudo ou trabalho;
  • reduzir distrações durante tarefas que exigem concentração;
  • manter alimentação e hidratação adequadas;
  • praticar atividade física regularmente.

No entanto, dificuldade de concentração persistente ou acompanhada de outros sintomas merece avaliação profissional. Isso é especialmente importante quando a alteração começa a interferir na escola, no trabalho ou nas atividades do dia a dia.

Aquela frase que precisa ser lida três vezes, portanto, pode ser apenas um sinal de que a atenção está temporariamente sobrecarregada. Mas, quando a sensação de névoa mental se torna frequente, vale investigar por que o cérebro está tendo dificuldade para manter o foco.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn