Pressão alta pode representar um risco ainda maior para quem tem câncer, indica estudo

Controle da pressão também integra o acompanhamento oncológico. (Imagem: Fala Ciência)

Ter pressão alta já exige acompanhamento contínuo, mas a condição pode ganhar uma importância ainda maior quando aparece junto ao câncer. Um novo estudo avaliou milhões de pacientes nos Estados Unidos e identificou um excesso de mortalidade relacionada à hipertensão entre pessoas diagnosticadas com diferentes tipos de tumores.

A pesquisa chama atenção principalmente para o período logo após o diagnóstico, quando o risco observado foi mais elevado.

Pressão alta e câncer podem se encontrar em diferentes situações

A hipertensão é uma das condições crônicas mais comuns e pode coexistir com o câncer por diferentes motivos. Além dos fatores de risco compartilhados, tratamentos, alterações metabólicas e o próprio impacto da doença podem tornar o controle cardiovascular especialmente importante durante o acompanhamento oncológico.

Por isso, avaliar a pressão arterial durante o tratamento do câncer não significa apenas cuidar de um fator de risco isolado. O controle cardiovascular pode fazer parte de uma abordagem mais ampla para esses pacientes.

Estudo analisou quase 7 milhões de pessoas com câncer

Para investigar essa relação, pesquisadores utilizaram informações do banco de dados SEER, que reúne registros de câncer de 17 regiões dos Estados Unidos.

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Ao todo, foram analisados 6.891.191 pacientes diagnosticados com câncer entre 2000 e 2021. Durante o período avaliado, 17.780 mortes foram atribuídas à hipertensão.

Os resultados mostraram que a mortalidade relacionada à pressão alta foi 24% maior do que a esperada na população geral, com razão de mortalidade padronizada de 1,24.

Os dados foram publicados na revista Scientific Reports em 16 de setembro de 2026. O primeiro autor, Bahaa Mali, e os demais pesquisadores analisaram também diferentes características dos pacientes para identificar em quais grupos o excesso de mortalidade era mais evidente.

Primeiro ano após o diagnóstico concentrou o maior risco

Risco de hipertensão dobra no 1º ano após o câncer. (Imagem: Fala Ciência)

Um dos resultados mais marcantes apareceu quando os pesquisadores separaram os pacientes de acordo com o tempo desde o diagnóstico do câncer.

No primeiro ano após o diagnóstico, a mortalidade relacionada à hipertensão foi aproximadamente duas vezes maior do que a esperada na população geral, com razão de mortalidade padronizada de 2,04.

O excesso de risco também foi observado em alguns grupos específicos, incluindo pacientes mais jovens, pessoas de minorias raciais, indivíduos solteiros e pacientes com doença regional ou metastática.

Além disso, o estudo encontrou maior mortalidade relacionada à hipertensão entre pessoas que não haviam recebido cirurgia, radioterapia ou quimioterapia.

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Controle da pressão ganha espaço no cuidado oncológico

Os pesquisadores também observaram que não houve redução clara da mortalidade relacionada à hipertensão entre 2010 e 2021 dentro da população estudada.

Isso chama atenção para a necessidade de acompanhar a pressão arterial de forma contínua durante o cuidado do câncer, especialmente nos períodos de maior vulnerabilidade.

É importante, porém, interpretar os resultados corretamente. O estudo é observacional e identifica uma associação entre câncer, hipertensão e mortalidade. Portanto, os dados não provam que a pressão alta tenha causado diretamente as mortes.

Ainda assim, os resultados indicam que o controle cardiovascular merece atenção durante o acompanhamento de pessoas com câncer, principalmente nos primeiros meses após o diagnóstico.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn