Por que pequenos buracos causam arrepios? A ciência finalmente explicou

Seu cérebro pode enxergar perigo em padrões de buracos antes da razão agir. (Imagem: Fala Ciência via Gemini)
Seu cérebro pode enxergar perigo em padrões de buracos antes da razão agir. (Imagem: Fala Ciência via Gemini)

Basta olhar para a cápsula de sementes de uma flor de lótus, uma colmeia vazia ou uma esponja marinha para que algumas pessoas sintam um desconforto imediato. Em segundos, surgem arrepios, coceira, náusea ou uma sensação difícil de descrever. Embora pareça algo estranho ou exagerado, esse fenômeno tem despertado o interesse da ciência há anos.

Conhecida popularmente como tripofobia, essa reação ocorre diante de padrões formados por buracos pequenos agrupados, saliências repetitivas ou estruturas geométricas semelhantes. Curiosamente, a resposta não parece ser apenas psicológica. Diversas pesquisas sugerem que ela pode estar ligada a mecanismos biológicos profundamente enraizados na evolução humana.

Um sistema de alerta herdado dos ancestrais

Nosso cérebro foi moldado durante milhões de anos para identificar perigos rapidamente. Em ambientes naturais, reconhecer ameaças antes dos demais indivíduos aumentava as chances de sobrevivência.

Por esse motivo, o sistema nervoso desenvolveu uma capacidade extraordinária de detectar padrões visuais associados ao risco. Muitos dos objetos que provocam tripofobia compartilham características visuais encontradas em:

  • Animais venenosos
  • Parasitas
  • Infecções de pele
  • Ferimentos e lesões cutâneas

O cérebro pode interpretar esses padrões como possíveis sinais de contaminação ou perigo biológico, ativando automaticamente sensações de repulsa.

A conexão entre buracos e doenças

Uma das hipóteses mais aceitas atualmente envolve o chamado sistema comportamental de prevenção de doenças.

Esse mecanismo funciona como uma primeira linha de defesa. Antes mesmo de um patógeno entrar em contato com o organismo, o cérebro tenta evitar situações potencialmente perigosas através do nojo e da aversão.

Lesões causadas por doenças infecciosas frequentemente apresentam padrões circulares agrupados, bolhas, pústulas ou perfurações na pele. Como resultado, imagens semelhantes podem desencadear uma resposta emocional negativa quase instantânea.

Em vez de representar uma fobia tradicional baseada no medo, muitos pesquisadores acreditam que a tripofobia está mais relacionada à repulsa biológica.

O que animais venenosos têm a ver com isso?

Outro detalhe intrigante envolve espécies altamente tóxicas encontradas na natureza. O famoso polvo-de-anéis-azuis, por exemplo, exibe círculos agrupados extremamente contrastantes. Certas serpentes venenosas, anfíbios tóxicos e até alguns insetos apresentam padrões repetitivos semelhantes. Esses desenhos funcionam como sinais de advertência visual.

Ao longo da evolução, indivíduos capazes de reagir rapidamente a esses estímulos poderiam ter apresentado vantagens de sobrevivência. Assim, parte dessa sensibilidade visual pode ter permanecido em nossa espécie.

O que a ciência descobriu recentemente?

O interesse pelo tema continua crescendo. Em fevereiro de 2025, um estudo publicado na revista Frontiers in Psychology, liderado por Toshio Yamada, investigou como diferentes características visuais influenciam a intensidade da resposta tripofóbica.

Os pesquisadores observaram que determinados arranjos geométricos e contrastes espaciais aumentam significativamente o desconforto percebido pelos participantes. Os resultados sugerem que a forma como o cérebro processa essas imagens desempenha papel central na reação emocional associada à tripofobia.

Além disso, os achados ajudam a explicar por que algumas pessoas apresentam respostas muito mais intensas do que outras.

Por que algumas pessoas sentem mais desconforto?

Nem todos os cérebros interpretam esses estímulos da mesma maneira. Fatores que podem influenciar incluem:

  • Sensibilidade individual ao nojo
  • Experiências prévias
  • Predisposição genética
  • Diferenças no processamento visual

Por isso, enquanto algumas pessoas observam uma colmeia sem qualquer reação, outras sentem desconforto imediato.

Muito além de uma simples “frescura”

A tripofobia mostra como nossa mente continua carregando traços de um passado evolutivo distante. Aquilo que parece apenas uma reação estranha pode ser resultado de mecanismos ancestrais criados para evitar venenos, doenças e outros riscos biológicos.

Em outras palavras, quando um agrupamento de pequenos buracos provoca arrepios ou repulsa, talvez não seja irracional. Pode ser apenas um antigo sistema de sobrevivência tentando cumprir uma função que acompanha a humanidade há milhares de gerações.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes