O sistema imunológico desse animal consegue separar bactérias boas das ruins

Anêmona-do-mar surpreende cientistas ao distinguir bactérias benéficas das potencialmente nocivas. (Imagem: Fala Ciência via Gemini)

A capacidade de diferenciar microrganismos benéficos daqueles capazes de causar doenças sempre foi considerada uma característica típica de animais com sistema imunológico adaptativo, como os vertebrados. No entanto, uma nova pesquisa mostra que essa habilidade surgiu muito antes do que se imaginava. O estudo revela que uma simples anêmona do mar consegue reconhecer quais bactérias devem permanecer em seu organismo e quais precisam ser eliminadas, lançando uma nova luz sobre a evolução do sistema imunológico.

Os resultados foram publicados em 2026 na revista científica Nature Communications, em um estudo liderado por N. H. Kaya, indicando que mecanismos sofisticados de reconhecimento microbiano já existiam nos primeiros ramos da evolução animal.

Uma anêmona do mar mudou a visão sobre a imunidade

A pesquisa teve como modelo a Nematostella vectensis, uma pequena anêmona marinha frequentemente utilizada em estudos evolutivos por representar um dos grupos mais antigos do reino animal.

Até pouco tempo, acreditava-se que organismos desse tipo possuíam apenas um sistema imunológico inato, caracterizado por respostas rápidas, porém pouco específicas. O novo trabalho mostra que essa classificação precisa ser revista.

Os pesquisadores observaram que a anêmona consegue selecionar microrganismos, preservando aqueles que fazem parte de seu microbioma natural enquanto elimina bactérias estranhas que podem representar uma ameaça ao organismo.

Nematossomos funcionam como verdadeiros guardiões microscópicos

Grande parte dessa capacidade depende de pequenas estruturas móveis chamadas nematossomos. Elas percorrem os tecidos da anêmona realizando um processo semelhante à fagocitose, no qual partículas e microrganismos são englobados e degradados.

O aspecto mais surpreendente foi a seletividade desse mecanismo. Em vez de destruir indiscriminadamente todas as bactérias, os nematossomos preservam os microrganismos benéficos e removem preferencialmente aqueles que não pertencem ao microbioma do animal.

Esse controle permite manter um ambiente microbiano equilibrado, condição essencial para diversas funções fisiológicas, incluindo:

  • Proteção contra infecções.
  • Estabilidade do microbioma.
  • Manutenção da saúde dos tecidos.
  • Equilíbrio das interações entre hospedeiro e microrganismos.

Gene específico controla esse sofisticado mecanismo

Outro ponto importante da pesquisa envolveu o gene cJun, responsável por regular a atividade dos nematossomos.

Utilizando a técnica de edição genética CRISPR/Cas, os cientistas desativaram esse gene para observar suas consequências. Como resultado, as anêmonas passaram a produzir menos nematossomos e perderam boa parte da capacidade de distinguir bactérias benéficas das potencialmente prejudiciais.

Essa alteração provocou um desequilíbrio no microbioma, tornando os animais significativamente mais vulneráveis ao desenvolvimento de infecções bacterianas. Os resultados mostram que o gene exerce um papel central na organização das respostas imunológicas desses invertebrados.

Uma descoberta que muda a história da evolução imunológica

As conclusões do estudo sugerem que o reconhecimento seletivo de microrganismos surgiu muito antes da evolução do sistema imunológico adaptativo encontrado em peixes, anfíbios, répteis, aves e mamíferos.

Isso significa que mecanismos capazes de favorecer bactérias benéficas já estavam presentes em animais extremamente antigos, permitindo uma convivência equilibrada com seu microbioma durante centenas de milhões de anos.

Além disso, os pesquisadores destacam que esses organismos também apresentam indícios de memória imunológica inata, conhecida como imunidade treinada. Embora não produzam anticorpos nem células de memória como os vertebrados, eles parecem responder de maneira mais eficiente após contatos anteriores com determinados patógenos.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes