A demência afeta milhões de pessoas em todo o mundo e, além da perda progressiva da memória, pode provocar sintomas que comprometem profundamente a qualidade de vida. Entre eles, a agitação está entre os mais difíceis de controlar, gerando sofrimento tanto para os pacientes quanto para familiares e cuidadores. Agora, uma nova pesquisa clínica aponta que uma formulação específica de cannabis medicinal, contendo THC e CBD, pode representar uma alternativa promissora para aliviar esse quadro.
Os resultados foram apresentados durante a Conferência Internacional da Alzheimer’s Association (AAIC) 2026, por Jacobo Mintzer e colaboradores, por meio do ensaio clínico LiBBY (Life’s end Benefits of cannaBidiol and tetrahYdrocannabinol). Embora os dados ainda não tenham sido publicados em um periódico científico revisado por pares, eles despertaram grande interesse por utilizarem um dos desenhos experimentais mais rigorosos da pesquisa clínica.
Por que a agitação é um grande desafio na demência?
A agitação é um sintoma frequente nas fases moderadas e avançadas da doença de Alzheimer e de outras formas de demência. Ela pode se manifestar por meio de:
- Inquietação constante.
- Episódios de agressividade.
- Movimentos repetitivos.
- Sofrimento emocional intenso.
- Alterações comportamentais que dificultam os cuidados diários.
Além do impacto sobre o paciente, esses sintomas aumentam significativamente a sobrecarga física e emocional dos cuidadores.
Os medicamentos tradicionalmente utilizados, como antipsicóticos, benzodiazepínicos e alguns opioides, podem apresentar eficácia limitada e causar efeitos adversos importantes, especialmente em idosos.
Como o estudo foi realizado
O ensaio LiBBY acompanhou 120 pacientes com Alzheimer ou outras formas de demência em estágio avançado, todos elegíveis para cuidados paliativos.
O estudo adotou um desenho randomizado, duplo-cego e controlado por placebo, considerado um dos padrões mais confiáveis para avaliar novos tratamentos. Nesse tipo de pesquisa, nem os pacientes, nem os profissionais responsáveis pelo acompanhamento sabiam quem estava recebendo a medicação ou o placebo durante o estudo.
Os participantes utilizaram uma suspensão oral contendo uma combinação padronizada de THC e CBD, enquanto outro grupo recebeu placebo durante 12 semanas.
Os resultados chamaram atenção dos pesquisadores
Os benefícios apareceram logo nas primeiras semanas de tratamento e permaneceram ao longo do acompanhamento. Entre os principais resultados observados estão:
- Redução de 6,27 pontos nos índices de agitação após duas semanas.
- Manutenção da melhora durante as 12 semanas de acompanhamento.
- 87,2% dos pacientes tratados apresentaram melhora clínica global, contra 23,6% no grupo placebo.
- Frequência semelhante de eventos adversos entre os dois grupos.
Os sintomas foram avaliados utilizando o Inventário de Agitação de Cohen-Mansfield, uma das principais escalas utilizadas internacionalmente para medir alterações comportamentais em pessoas com demência.
Por que os resultados exigem cautela?
Embora os dados sejam bastante promissores, é importante destacar que a medicação utilizada no estudo não corresponde aos produtos comerciais de cannabis disponíveis em dispensários, farmácias ou pela internet.
A formulação empregada foi desenvolvida especificamente para pesquisa clínica, com controle rigoroso da concentração dos princípios ativos, qualidade farmacêutica e acompanhamento médico durante todo o tratamento.
Além disso, como os resultados foram apresentados inicialmente na AAIC 2026, ainda serão necessárias a publicação completa em periódico científico e novas pesquisas para confirmar a eficácia, avaliar a segurança em longo prazo e definir quais pacientes podem se beneficiar dessa abordagem.
Uma nova possibilidade para melhorar a qualidade de vida
O ensaio clínico LiBBY, apresentado por Jacobo Mintzer e colaboradores na Conferência Internacional da Alzheimer’s Association (AAIC) 2026, representa um avanço importante na busca por tratamentos para sintomas comportamentais da demência.
Embora a terapia não tenha demonstrado capacidade de interromper a progressão da doença, os resultados sugerem que uma formulação cuidadosamente desenvolvida de THC e CBD pode reduzir significativamente a agitação em pacientes com demência avançada. Se estudos futuros confirmarem esses achados, essa estratégia poderá ampliar as opções terapêuticas disponíveis e contribuir para uma melhor qualidade de vida de pacientes e cuidadores.
