Plutão pode estar escondendo rios de nitrogênio sob seu gelo congelado

Plutão pode esconder nitrogênio líquido sob o gelo, capaz de alcançar a superfície em erupções criovulcânicas.(Imagem: Universidade do Colorado, publicada em Stern et al., 2026, The Planetary Science Journal 7, 185 · CC BY 4.0)

A mais de cinco bilhões de quilômetros do Sol, Plutão parece ser um dos lugares menos prováveis do Sistema Solar para abrigar líquidos na superfície. Com temperaturas próximas de 236 °C negativos, o nitrogênio, tão comum na atmosfera terrestre, deveria permanecer congelado. Entretanto, uma nova interpretação das imagens da missão New Horizons sugere que algo inesperado pode estar acontecendo nas profundezas do planeta anão.

A suspeita está em Sputnik Planitia, uma enorme planície coberta por gelo de nitrogênio. A região apresenta células poligonais produzidas pela lenta movimentação do gelo e, principalmente, uma série de manchas escuras que acompanham suas bordas. Segundo a hipótese apresentada no estudo, essas estruturas podem representar marcas deixadas por nitrogênio líquido que ascendeu desde a base da geleira, alcançou a superfície e congelou novamente.

Um oceano congelado que nunca fica parado

As imagens da New Horizons já haviam mostrado que Sputnik Planitia está longe de ser uma paisagem estática. O gelo de nitrogênio se movimenta lentamente, formando grandes células de convecção que reciclam a superfície em uma escala de centenas de milhares de anos.

Esse processo é importante porque explica por que quase não existem crateras de impacto na planície. A superfície está sendo continuamente renovada, apagando marcas antigas e criando um cenário geologicamente jovem.

Agora, as manchas escuras acrescentam uma nova possibilidade. Elas apresentam formas alongadas e frequentemente aparecem próximas às depressões entre as células de convecção. Para os pesquisadores, essa distribuição é difícil de explicar apenas por processos de sublimação ou pelo envelhecimento natural do gelo.

O nitrogênio pode estar subindo em vez de descer

A hipótese depende de uma característica incomum do nitrogênio. Diferentemente da água, o nitrogênio líquido é menos denso que seu equivalente sólido. Isso significa que, caso exista uma região onde o gelo consiga derreter, o líquido tende a subir.

O mecanismo proposto envolve calor vindo do interior de Plutão. Mesmo sendo um corpo pequeno e extremamente frio, o planeta anão ainda possui energia interna suficiente para produzir um fluxo geotérmico. Em determinadas condições, esse calor poderia levar o nitrogênio localizado sob a geleira ao estado líquido.

O estudo liderado por Alan Stern, publicado em 31 de julho de 2026 no The Planetary Science Journal, calculou que o líquido poderia se acumular em reservatórios subterrâneos e, eventualmente, escapar por fraturas estreitas.

A ideia seria semelhante ao vulcanismo terrestre, mas com uma diferença extraordinária: em Plutão, o material eruptivo não seria rocha derretida, e sim nitrogênio líquido.

Uma erupção silenciosa e extremamente fria

Os modelos indicam que uma eventual ascensão poderia ocorrer rapidamente. Depois de armazenado durante longos períodos, o líquido acumulado poderia gerar pressão suficiente para abrir pequenas fraturas no gelo.

Ao alcançar a superfície, entretanto, o nitrogênio teria pouco tempo antes de congelar novamente. Os cálculos sugerem que alguns fluxos poderiam percorrer quilômetros antes de solidificar, deixando depósitos escuros que permaneceriam preservados até serem apagados pela própria convecção da planície.

A hipótese também explica por que a New Horizons não identificou claramente as possíveis bocas dessas erupções. As estruturas responsáveis pelo escape poderiam ser pequenas demais para a resolução das melhores imagens disponíveis.

Ainda assim, é importante separar hipótese de evidência direta. O estudo não detectou nitrogênio líquido em tempo real nem registrou uma erupção. A interpretação depende de modelos físicos e da associação entre morfologia, comportamento do gelo, temperatura e manchas superficiais.

Por isso, a confirmação exigiria novas observações de alta resolução. Uma futura missão orbital poderia mapear Sputnik Planitia em detalhes, investigar a composição das manchas e procurar outras estruturas semelhantes.

Se a interpretação estiver correta, Plutão não seria apenas um mundo congelado. Sob quilômetros de gelo, processos capazes de movimentar líquidos poderiam ainda estar transformando sua superfície, mostrando que até os ambientes mais frios do Sistema Solar podem esconder uma dinâmica surpreendente.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes