Olhar para a tela do celular com a cabeça abaixada aumenta em até 5 vezes o peso sobre a cervical 

A cabeça inclinada aumenta a exigência sobre a cervical. (Imagem: Fala Ciência)

O celular pesa pouco, mas a posição em que você segura o aparelho pode mudar completamente o esforço exigido do pescoço. Quando a cabeça permanece inclinada para frente enquanto a pessoa lê mensagens, assiste a vídeos ou passa horas nas redes sociais, a musculatura cervical precisa trabalhar continuamente para mantê-la nessa posição.

É justamente essa sobrecarga prolongada que está por trás do chamado “pescoço de texto”, expressão usada para descrever alterações posturais e sintomas musculoesqueléticos associados ao uso frequente de dispositivos móveis.

A estimativa de que a carga sobre a cervical possa chegar a até cinco vezes o peso habitual da cabeça é uma forma de ilustrar o impacto biomecânico da inclinação. Entretanto, esse valor varia conforme o ângulo, a postura e as características individuais. Não significa que a coluna esteja literalmente recebendo um peso fixo de cinco vezes o corpo da cabeça.

O problema começa quando o pescoço sai do eixo

Comparativo de postura: alinhada vs. tensão no pescoço. (Imagem: Fala Ciência)

Em uma postura mais neutra, a cabeça permanece relativamente alinhada sobre a coluna. Assim, os músculos precisam fazer menos esforço para mantê-la posicionada.

Quando o celular fica próximo ao colo, entretanto, os olhos acompanham a tela e a cabeça tende a avançar. Quanto maior a inclinação, maior o braço de alavanca criado pelo peso da cabeça, aumentando a demanda sobre os músculos que sustentam a região cervical.

O problema não é olhar para baixo ocasionalmente. O maior desafio aparece quando essa posição é mantida por períodos prolongados e repetidos ao longo do dia.

Com o tempo, podem surgir:

  • dor e rigidez no pescoço;
  • tensão nos ombros;
  • desconforto na parte superior das costas;
  • redução da mobilidade cervical;
  • dores de cabeça associadas à tensão muscular.

Pesquisa encontrou alterações em quem apresenta “pescoço de texto”

Um estudo publicado no Journal of Electromyography and Kinesiology, em abril de 2026, investigou a relação entre o uso do celular, atividade muscular, postura e sintomas musculoesqueléticos. O primeiro autor foi Zeynal Yasaci.

A pesquisa avaliou 40 adultos jovens, sendo 18 participantes classificados no grupo com “text neck” e 22 no grupo controle. Os pesquisadores observaram que o grupo com o problema apresentava maior tempo diário de uso do smartphone, especialmente para mensagens e redes sociais. Também foram identificadas diferenças na ativação muscular, na postura e em medidas relacionadas à incapacidade.

O estudo é importante, mas precisa ser interpretado corretamente. Como se trata de uma investigação observacional, seus resultados mostram uma associação entre esses fatores, não uma prova de que o celular sozinho provoque alterações permanentes na coluna.

A tela na altura dos olhos muda bastante a postura

Uma das estratégias mais simples é evitar que o aparelho fique constantemente abaixo da linha do peito. Elevar o celular em direção à altura dos olhos reduz a necessidade de flexionar o pescoço.

Além disso, pequenas mudanças durante o dia podem diminuir o tempo acumulado em uma única posição:

  • alterne as mãos ao utilizar o celular;
  • apoie os braços quando possível;
  • faça pausas durante períodos prolongados de uso;
  • movimente suavemente o pescoço e os ombros;
  • evite passar longos períodos olhando para a tela com o queixo próximo ao peito.

Não é necessário abandonar o smartphone. A questão é evitar transformar uma postura inadequada em uma posição mantida durante horas.

O pescoço também precisa de movimento

A coluna cervical foi feita para se movimentar. Por isso, o problema não está em inclinar a cabeça algumas vezes durante o dia, mas na combinação entre tempo prolongado, repetição e pouca variação postural.

Se a dor cervical persiste, piora progressivamente ou vem acompanhada de formigamento, perda de força, alterações de sensibilidade ou dor irradiada para os braços, é importante buscar avaliação profissional.

O celular pode fazer parte da rotina sem necessariamente se transformar em um problema para o pescoço. A altura da tela, o tempo de uso e a frequência das pausas podem fazer diferença para reduzir a sobrecarga cervical.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn