Uso de telas pode afetar foco infantil enquanto leitura melhora atenção 

Telas em excesso podem reduzir a atenção. (Foto: Andy Dean via Canva)
Telas em excesso podem reduzir a atenção. (Foto: Andy Dean via Canva)

Em um cenário dominado por telas, uma descoberta recente chama atenção: hábitos simples do dia a dia podem influenciar diretamente a capacidade de concentração das crianças.

Um estudo publicado na revista científica BMC Pediatrics, conduzido por Tanja Poulain em 2025, analisou como o tempo de exposição a dispositivos eletrônicos e o hábito de leitura impactam o desempenho cognitivo infantil. Os resultados indicam uma diferença clara entre esses dois comportamentos.

Telas exigem menos foco e podem prejudicar a atenção

De acordo com a pesquisa, o uso frequente de mídias digitais, como televisão, celulares e videogames, está associado a uma redução da atenção sustentada.

Isso acontece porque esses dispositivos oferecem estímulos rápidos e constantes, o que dificulta o cérebro manter o foco por longos períodos. Como consequência, crianças mais expostas às telas tendem a:

  • Apresentar mais distração
  • Ter maior impulsividade
  • Cometer mais erros em tarefas que exigem concentração

Esses efeitos foram observados tanto em crianças menores quanto em estudantes do ensino fundamental.

Leitura funciona como um treino natural de concentração

Ler treina o cérebro para se concentrar. (Foto: Pexels via Canva)
Ler treina o cérebro para se concentrar. (Foto: Pexels via Canva)

Por outro lado, o estudo mostrou que a leitura independente está associada a um melhor desempenho em testes de atenção.

Diferente das telas, ler exige que a criança mantenha o foco de forma contínua, interpretando informações e acompanhando uma narrativa. Esse processo ativa áreas importantes do cérebro ligadas ao controle cognitivo.

Entre os principais benefícios observados em crianças que leem com frequência:

  • Menor número de erros em testes de atenção
  • Maior capacidade de concentração contínua
  • Melhor controle de impulsos

Ou seja, a leitura funciona como um verdadeiro exercício mental.

Como o estudo avaliou a atenção das crianças

A pesquisa analisou mais de 1.000 crianças, divididas em diferentes faixas etárias. Para medir a atenção, foi utilizado um teste computadorizado de sete minutos, no qual os participantes precisavam:

  • Identificar estímulos específicos
  • Ignorar distrações visuais
  • Manter o foco sem interrupções

Durante o experimento, foram avaliados dois indicadores principais:

  • Erros de omissão, ligados à falta de atenção
  • Respostas impulsivas, relacionadas ao controle comportamental

Além disso, os hábitos diários das crianças, como tempo de tela e frequência de leitura, foram considerados na análise.

Diferenças importantes entre leitura e entretenimento digital

Os resultados reforçam uma diferença fundamental entre esses dois hábitos:

  • Telas estimulam atenção fragmentada
  • Leitura exige atenção contínua

Essa distinção pode explicar por que crianças leitoras tendem a desenvolver melhor capacidade de concentração ao longo do tempo.

Outro ponto observado foi que, de forma geral, meninas apresentaram melhor desempenho nos testes de atenção, embora os efeitos principais tenham sido consistentes em todos os grupos.

O que isso significa para o dia a dia das famílias

Embora o estudo não comprove uma relação direta de causa e efeito, ele aponta uma direção importante: o equilíbrio entre hábitos pode influenciar o desenvolvimento cognitivo.

Na prática, isso sugere:

  • Reduzir o tempo excessivo de telas
  • Incentivar a leitura regular
  • Estimular atividades que exigem foco contínuo

Pequenas mudanças na rotina podem ter impacto significativo no desempenho escolar e no desenvolvimento mental.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn