Coruja perdida em alto-mar encontra barco e ganha uma nova chance 

Coruja é resgatada após ficar perdida a 112 km da costa. (Imagem: Exército Britânico)

Uma cena improvável aconteceu em alto-mar: uma coruja-das-torres apareceu a cerca de 112 quilômetros da costa do Reino Unido, exausta e sem qualquer lugar seguro para pousar. Em meio ao oceano, onde suas chances de encontrar alimento ou abrigo eram praticamente nulas, a ave acabou encontrando justamente o que precisava para sobreviver: uma embarcação em movimento.

O animal foi avistado por integrantes do Exército Britânico que participavam da RORC Round Britain and Ireland Race, uma tradicional competição de vela. Antes de conseguir pousar no barco, a coruja chegou a cair na água diversas vezes.

Quando finalmente encontrou uma superfície onde pudesse descansar, começou uma corrida contra o tempo.

Uma viagem improvável pelo oceano

Os tripulantes perceberam rapidamente que a ave estava em condições delicadas. Durante aproximadamente 24 horas, eles mantiveram a coruja protegida dentro da embarcação enquanto seguiam pela competição.

A situação era especialmente complicada porque um barco de regata não oferece as condições encontradas em um centro de reabilitação. Além disso, havia pouca comida disponível, o que tornava a permanência da ave no oceano ainda mais perigosa.

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A coruja recebeu o apelido de Little Reg, em uma homenagem improvisada feita pelos militares que participaram do resgate.

A hipótese levantada posteriormente é que a ave tenha pousado originalmente em algum barco de pesca que estava atracado e acabou sendo levada para longe da costa quando a embarcação partiu. Sem perceber que estava sendo transportada, ela teria ficado presa em uma região completamente inadequada para sua sobrevivência.

Por que uma coruja-das-torres dificilmente sobreviveria ali?

Ave encontra abrigo em barco durante uma regata no oceano. (Imagem: Exército Britânico)

A coruja-das-torres, conhecida cientificamente como Tyto alba, é uma ave associada principalmente a áreas abertas, como campos, pastagens e regiões agrícolas.

O ambiente oceânico está muito distante de seu habitat habitual. Em terra, essas corujas conseguem explorar o solo e a vegetação em busca de pequenos mamíferos. Em alto-mar, entretanto, desaparecem praticamente todas essas oportunidades.

Além da ausência de alimento, existe outro problema: o gasto energético durante o voo. Uma ave debilitada precisa economizar energia, mas encontrar um local adequado para descansar em mar aberto é extremamente difícil.

Por isso, o aparecimento da embarcação pode ter sido decisivo.

Uma especialista em caça no escuro

A coruja-das-torres é um dos animais mais estudados quando o assunto é localização de sons. Seu rosto apresenta um disco de penas chamado disco facial, que funciona como uma espécie de estrutura coletora de sons.

Além disso, as posições assimétricas dos ouvidos ajudam o cérebro da ave a determinar de onde um ruído está vindo. Isso permite localizar presas mesmo quando a iluminação é extremamente baixa.

Um estudo publicado no Journal of Physiology-Paris, em 2013, pelo pesquisador Hermann Wagner, descreveu a capacidade da espécie de capturar presas usando principalmente informações auditivas, além de destacar adaptações como o voo silencioso, os olhos voltados para a frente e o disco facial.

Essa combinação transforma a coruja-das-torres em uma caçadora extremamente especializada, capaz de detectar pequenos movimentos de presas escondidas na vegetação.

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O resgate que mudou o destino de Little Reg

Depois de aproximadamente um dia na embarcação, a coruja foi transferida para um bote salva-vidas que conseguiu levá-la de volta à terra firme.

A operação contou com a mobilização de James Stannard, agente de conservação do Barn Owl Trust, que ajudou a organizar os recursos necessários para receber a ave.

Little Reg foi encaminhada ao East Winch Wildlife Centre, da RSPCA, em King’s Lynn, na Inglaterra.

Quando chegou ao centro de reabilitação, porém, a situação ainda exigia cuidados. A coruja estava muito magra e fraca e passou a receber hidratação, nutrição, aquecimento e repouso.

O caso mostra como um animal adaptado para sobreviver em ambientes terrestres pode ficar vulnerável quando é levado involuntariamente para um cenário completamente diferente.

Mais do que uma história curiosa, o episódio revela a importância da resposta rápida em resgates de fauna silvestre. Para Little Reg, um simples pouso em um barco acabou determinando a diferença entre permanecer perdida no oceano e ganhar uma nova chance em terra firme.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes