O remédio para pressão que você toma foi criado a partir do veneno de uma jararaca

Descoberta ligou veneno de cobra a medicamentos. (Foto: Fala Ciência via Gemini)
Descoberta ligou veneno de cobra a medicamentos. (Foto: Fala Ciência via Gemini)

Na natureza, a picada da jararaca (Bothrops jararaca) pode provocar uma queda brusca da pressão arterial, capaz de levar a um colapso circulatório em poucos minutos. O que parecia apenas um mecanismo de defesa perigoso acabou revelando algo inesperado: o veneno continha moléculas com forte ação sobre o controle da pressão sanguínea.

Esse achado abriu caminho para uma das descobertas mais importantes da farmacologia cardiovascular moderna.

A pista escondida dentro do veneno

Pesquisadores identificaram que o veneno da jararaca possuía peptídeos capazes de interferir em um sistema fundamental do organismo: o sistema renina-angiotensina, responsável pelo controle da pressão arterial.

Esses peptídeos atuavam inibindo a enzima conversora de angiotensina (ECA), reduzindo a formação de angiotensina II, uma substância que provoca vasoconstrição intensa.

Ao mesmo tempo, eles aumentavam a atividade da bradicinina, um potente vasodilatador natural. O resultado era uma combinação fisiológica clara:

  • vasos sanguíneos mais dilatados
  • queda da pressão arterial
  • aumento do fluxo sanguíneo

Do veneno ao laboratório: a base dos inibidores da ECA

A descoberta foi aprofundada no estudo publicado na revista Biochemistry (1 de outubro de 1971), conduzido por Miguel A. Ondetti et al.

Nesse trabalho, os pesquisadores isolaram e caracterizaram os inibidores da ECA presentes no veneno da Bothrops jararaca, além de elucidar sua estrutura química e demonstrar a possibilidade de síntese em laboratório.

Esse foi o ponto de partida para o desenvolvimento de uma nova classe terapêutica: os inibidores da enzima conversora de angiotensina, que mais tarde levariam ao surgimento do captopril.

Como essa descoberta muda a pressão arterial

A enzima ECA desempenha um papel central no controle da pressão. Quando ela é bloqueada, ocorre uma cascata de efeitos fisiológicos:

  • redução da formação de angiotensina II
  • diminuição da vasoconstrição
  • relaxamento dos vasos sanguíneos
  • queda da pressão arterial sistêmica

Foi exatamente esse mecanismo, inspirado nos peptídeos do veneno, que deu origem a medicamentos amplamente utilizados no tratamento da hipertensão.

Um exemplo clássico de biotecnologia natural

O estudo de Ondetti e colaboradores (1971) mostrou como uma substância tóxica pode ser transformada em ferramenta terapêutica quando compreendida em nível molecular.

A partir dessa descoberta, a medicina passou a explorar com mais intensidade o potencial de venenos e toxinas como fontes de novos fármacos.

O veneno da jararaca deixou de ser apenas um agente perigoso para se tornar peça-chave no desenvolvimento de uma das classes mais importantes de medicamentos cardiovasculares.

O estudo publicado em Bioquímica (1971) marcou o início dessa transformação ao revelar os inibidores naturais da ECA, abrindo caminho para terapias que hoje ajudam a controlar a hipertensão em milhões de pessoas.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn