Apertar os dentes dormindo sem perceber: por que o cérebro faz isso durante picos de ansiedade? 

Apertar os dentes durante o sono pode passar despercebido. (Imagem: Fala Ciência)

Você acorda com a mandíbula cansada, percebe os dentes mais sensíveis ou alguém comenta que você range os dentes enquanto dorme. Durante a noite, o corpo continua executando movimentos que não passam pelo controle consciente, e um deles é o bruxismo do sono.

O fenômeno envolve atividades repetitivas dos músculos responsáveis pela mastigação, que podem incluir apertar ou ranger os dentes. Em períodos de estresse e ansiedade, esses episódios ganham atenção porque alterações emocionais estão associadas ao bruxismo. Entretanto, a ciência não sustenta a ideia de que toda crise de ansiedade provoque automaticamente o problema.

Sistema nervoso continua em estado de alerta

A complexa interação de sono, sistema nervoso e musculatura no bruxismo. (Imagem: Fala Ciência)

Durante o sono, o cérebro alterna diferentes estágios e ajusta continuamente funções como respiração, frequência cardíaca e atividade muscular. Pequenos despertares, chamados microdespertares, também acontecem naturalmente e muitas vezes não são percebidos.

Nesse cenário, o sistema nervoso autônomo pode participar de episódios de atividade muscular da mandíbula. A ansiedade e o estresse entram nessa equação como possíveis fatores associados, especialmente quando existe maior ativação fisiológica ou sono de pior qualidade.

Por isso, o bruxismo não deve ser entendido simplesmente como uma reação emocional. Outros elementos também estão envolvidos, incluindo:

  • características individuais do sono
  • atividade do sistema nervoso autônomo
  • medicamentos e outras condições de saúde
  • alterações respiratórias durante o sono
  • fatores relacionados à mandíbula e à musculatura mastigatória

Assim, o cérebro não está necessariamente “descontando a ansiedade nos dentes”. O fenômeno é mais complexo e envolve a interação entre sono, sistema nervoso e atividade muscular.

A tensão que fica depois que a noite termina

Mesmo sem perceber os episódios, a pessoa pode acordar apresentando cansaço ou desconforto na mandíbula, dor na região das têmporas ou sensação de pressão nos dentes.

Quando o apertamento acontece repetidamente, também existe possibilidade de desgaste dentário e sobrecarga das estruturas responsáveis pela mastigação. Em algumas pessoas, sintomas relacionados à articulação temporomandibular também podem aparecer.

Um detalhe importante é que a ausência de dor não significa necessariamente ausência de bruxismo. Algumas pessoas só descobrem o comportamento porque alguém percebe os sons durante o sono ou porque o dentista identifica sinais compatíveis durante uma avaliação.

Pesquisa encontrou ligação com ansiedade e estresse

Um estudo publicado no International Journal of Prosthodontics em 6 de fevereiro de 2026, liderado por Ruy Teichert Filho, avaliou a relação entre bruxismo durante o sono, bruxismo em vigília, dor, depressão, ansiedade, estresse e qualidade do sono.

A pesquisa, chamada The Brigada Militar Study, analisou diferentes padrões de bruxismo e seus vínculos com aspectos físicos e emocionais. Os resultados ajudaram a demonstrar que bruxismo e alterações emocionais podem aparecer associados, embora isso não prove que a ansiedade seja a causa direta do apertamento noturno.

Outro estudo populacional publicado em 2026 também investigou possíveis caminhos associados ao bruxismo do sono, mostrando que o fenômeno envolve diferentes fatores de risco e não deve ser reduzido a uma única explicação.

Sinal noturno merece investigação quando vira rotina

Apertar os dentes ocasionalmente não significa necessariamente que exista um problema clínico. Porém, episódios frequentes acompanhados de dor, sensibilidade dentária, desgaste ou cansaço mandibular justificam uma avaliação odontológica.

Além disso, quando o apertamento aparece junto de sono ruim, estresse persistente ou ansiedade, vale observar o conjunto dos sintomas. Identificar os fatores associados é mais útil do que tentar atribuir tudo exclusivamente à tensão emocional.

O bruxismo do sono, portanto, não é apenas uma questão de dentes. Ele envolve cérebro, sono, sistema nervoso e musculatura, e justamente por isso sua avaliação precisa considerar o contexto completo de cada pessoa.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn