Vírus do HPV pode ficar “dormindo” no corpo por anos sem apresentar nenhum sintoma 

O HPV pode permanecer silencioso por anos sem causar sinais. (Imagem: Fala Ciência)

O HPV é um dos vírus mais comuns que infectam a pele e as mucosas. O aspecto que costuma surpreender é que uma pessoa pode ter HPV sem perceber, porque muitas infecções não produzem verrugas, dor ou outras alterações aparentes.

Isso acontece porque a infecção pode permanecer subclínica, ou seja, presente sem manifestações evidentes. Além disso, o organismo consegue eliminar ou controlar muitas infecções ao longo do tempo. Em outros casos, entretanto, determinados tipos de HPV podem persistir por períodos prolongados.

Por isso, a ausência de sintomas não significa necessariamente ausência do vírus.

O vírus pode estar presente sem dar sinais

Existem muitos tipos de HPV, e eles não apresentam exatamente o mesmo comportamento. Alguns estão mais relacionados a verrugas, enquanto determinados tipos de alto risco estão associados ao desenvolvimento de alterações celulares que, quando persistentes, podem aumentar o risco de alguns cânceres.

A maioria das infecções por HPV não evolui para câncer. O principal ponto de atenção é a persistência de determinados tipos de alto risco, especialmente quando a infecção permanece por tempo prolongado.

Além disso, o HPV não precisa provocar sintomas para ser detectado. Testes específicos conseguem identificar material genético viral mesmo quando não existem alterações perceptíveis.

HPV indetectável não significa necessariamente vírus eliminado

HPV indetectável nem sempre significa que o vírus foi eliminado. (Imagem: Fala Ciência)

A expressão “HPV dormindo” é útil para explicar uma situação, mas precisa ser entendida com cuidado. Na literatura médica, essa situação pode ser descrita como uma infecção persistente ou subclínica, embora também seja possível que o vírus não seja identificado em um determinado momento do acompanhamento. 

Isso ocorre porque uma infecção pode deixar de ser detectada em um exame e, posteriormente, voltar a ser identificada. Essa situação não permite concluir automaticamente que houve uma nova infecção.

Por isso, a história natural do HPV é mais complexa do que simplesmente “pegar o vírus e permanecer com ele para sempre”.

Análise encontrou diferenças entre os tipos de HPV

Uma pesquisa publicada na revista American Journal of Obstetrics & Gynecology em 25 de fevereiro de 2026, liderada por Eero Numminen, analisou a persistência de 14 tipos de HPV de alto risco durante acompanhamento prolongado.

O estudo encontrou diferenças importantes entre os genótipos. O HPV52 apresentou a maior proporção de persistência, seguido pelos tipos 58, 31 e 16. Entre as infecções persistentes avaliadas, 22,3% evoluíram para lesões pré-cancerosas durante o acompanhamento.

Ao mesmo tempo, 65,3% das infecções persistentes de alto risco desapareceram espontaneamente ao longo do período analisado. Isso demonstra por que a presença do HPV não deve ser interpretada automaticamente como desenvolvimento de câncer.

Os resultados também mostraram que idade e tipo viral influenciam o comportamento da infecção, tornando inadequada uma interpretação única para todos os casos.

A ausência de sintomas não elimina a importância do acompanhamento

Como o HPV frequentemente não provoca sintomas, esperar pelo aparecimento de sinais não é uma estratégia adequada para identificar alterações relacionadas ao vírus.

Quando indicado, o rastreamento do câncer do colo do útero permite identificar infecções por tipos de alto risco e alterações celulares antes que elas avancem.

Além disso, a vacinação contra o HPV é uma importante ferramenta de prevenção, porque ajuda a evitar infecções pelos tipos virais incluídos na vacina. Ela, entretanto, não funciona como tratamento para uma infecção já estabelecida.

Persistência é o ponto que merece mais atenção

Ter contato com HPV não significa que uma pessoa desenvolverá câncer. Na realidade, muitas infecções são controladas pelo organismo.

O maior cuidado está relacionado à persistência de determinados tipos de alto risco, principalmente quando ela é acompanhada por alterações celulares.

Por isso, a ideia de que o HPV pode ficar “dormindo” durante anos precisa ser acompanhada de uma informação essencial: o comportamento do vírus varia conforme o tipo, o organismo e o tempo de infecção.

A melhor abordagem é não interpretar a ausência de sintomas como garantia de que não existe HPV. Quando o rastreamento é indicado, manter o acompanhamento permite identificar alterações que não seriam percebidas apenas pela observação do corpo.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn