Você já teve um dia em que a irritação apareceu sem motivo aparente, a concentração desapareceu e o humor parecia estranho do começo ao fim? Embora fatores emocionais tenham um papel importante, a ciência vem descobrindo que parte da resposta pode estar muito mais perto do estômago do que da mente.
Dentro do intestino vivem trilhões de bactérias que participam ativamente da comunicação entre o sistema digestivo e o cérebro. Esse sistema, conhecido como eixo intestino-cérebro, influencia processos ligados ao humor, à memória, à motivação e até à forma como reagimos ao estresse.
E é justamente aí que entram os alimentos ultraprocessados.
Seu intestino conversa com o cérebro o tempo todo
Durante décadas, acreditava-se que o cérebro comandava sozinho as emoções. Hoje sabemos que o intestino participa dessa conversa de forma constante.
A microbiota intestinal produz metabólitos e sinais químicos que viajam pelo organismo através do sistema nervoso, do sistema imunológico e da circulação sanguínea.
Um dado impressionante é que cerca de 90% da serotonina do organismo é produzida no trato gastrointestinal, principalmente por células intestinais influenciadas pela microbiota.
Quando esse ecossistema está equilibrado, a comunicação entre intestino e cérebro tende a funcionar adequadamente. Porém, quando ocorre um desequilíbrio, os efeitos podem alcançar muito além da digestão.
O problema escondido nos ultraprocessados
Salgadinhos, biscoitos recheados, refrigerantes e diversos produtos industrializados costumam conter uma combinação de ingredientes que não existiriam naturalmente naquele formato.
Além do excesso de açúcar, gordura e sódio, muitos desses alimentos contêm emulsificantes, estabilizantes, espessantes, aromatizantes e outros aditivos tecnológicos.
Pesquisas recentes sugerem que alguns desses componentes podem alterar a composição da microbiota intestinal e favorecer a chamada disbiose, caracterizada pelo desequilíbrio entre bactérias benéficas e potencialmente prejudiciais.
Quando isso acontece, podem surgir alterações como:
- Redução da diversidade bacteriana.
- Produção alterada de metabólitos benéficos.
- Aumento da permeabilidade intestinal.
- Maior ativação de mecanismos inflamatórios.
Da inflamação intestinal ao humor
A disbiose não afeta apenas o intestino.
O desequilíbrio bacteriano pode estimular uma inflamação sistêmica de baixo grau, condição que vem sendo associada a alterações neuroquímicas relacionadas ao humor.
Além disso, mudanças na microbiota podem influenciar a disponibilidade de compostos envolvidos na produção de neurotransmissores importantes, incluindo aqueles ligados à sensação de bem-estar.
Uma revisão publicada na revista Nutrients, em 29 de março de 2025, liderada por Mariane Lutz, analisou os mecanismos pelos quais os alimentos ultraprocessados podem impactar a saúde mental. Os autores destacam que alterações da microbiota intestinal, inflamação crônica e modificações na comunicação intestino-cérebro estão entre as principais hipóteses que explicam a associação entre ultraprocessados e desfechos neuropsiquiátricos.
Outra revisão publicada na revista FASEB Journal, em 15 de julho de 2025, com autoria principal de Tyler Seto, discutiu como diversos aditivos alimentares podem interferir na saúde intestinal, afetando a microbiota, a permeabilidade intestinal e mecanismos inflamatórios.
Pequenas escolhas que influenciam grandes sistemas
Isso não significa que um único pacote de biscoito vá mudar seu humor instantaneamente. O que a ciência observa é o efeito acumulado de padrões alimentares mantidos por meses ou anos.
Por outro lado, dietas ricas em frutas, verduras, legumes, grãos integrais e alimentos minimamente processados costumam favorecer uma microbiota mais diversa e resiliente.
Seu cérebro e seu intestino trabalham em parceria todos os dias. E muitas vezes, aquilo que parece apenas um lanche rápido também pode estar enviando mensagens biológicas capazes de influenciar como você se sente horas depois.

