Dormir muito não garante descanso, e este é o motivo 

Dormir 8 horas nem sempre significa descansar. (Foto: Getty Images via Canva)
Dormir 8 horas nem sempre significa descansar. (Foto: Getty Images via Canva)

Você deita cedo, dorme por oito horas e, ainda assim, acorda com a sensação de que passou a noite inteira trabalhando. Enquanto algumas pessoas despertam cheias de energia, outras levantam da cama já contando as horas para voltar a dormir.

A explicação pode estar em um detalhe que muita gente ignora: nem todo sono é igualmente restaurador. Na verdade, o cérebro passa por diferentes estágios ao longo da noite, e a qualidade dessas fases pode ser mais importante do que o número de horas dormidas.

O que acontece enquanto você dorme?

O sono não é um estado uniforme. Durante a noite, o organismo alterna entre diferentes ciclos que incluem o sono leve, o sono profundo e o sono REM.

O sono profundo é considerado uma das fases mais restauradoras. É nesse momento que ocorre grande parte da recuperação física, reparação de tecidos e liberação de hormônios importantes.

Já o sono REM desempenha papel fundamental na consolidação da memória, no aprendizado e no processamento emocional.

Quando esses estágios são interrompidos repetidamente, a pessoa pode permanecer muitas horas na cama sem obter o descanso necessário.

O problema pode estar nas interrupções invisíveis

Nem toda fragmentação do sono é percebida conscientemente.

Muitas pessoas apresentam pequenos despertares ao longo da noite sem sequer se lembrar deles pela manhã. Esses episódios podem reduzir o tempo gasto nas fases mais importantes do sono.

Entre as causas mais comuns estão:

  • Estresse e ansiedade
  • Horários irregulares para dormir
  • Consumo excessivo de cafeína
  • Uso noturno de telas
  • Distúrbios respiratórios do sono

Como consequência, o cérebro tem dificuldade para completar seus ciclos normais de recuperação.

Quando a respiração atrapalha o descanso?

Um dos distúrbios mais frequentes é a apneia obstrutiva do sono.

Nessa condição, as vias aéreas sofrem obstruções temporárias durante a noite, reduzindo a passagem de ar. O cérebro reage provocando microdespertares para restabelecer a respiração.

Muitas vezes a pessoa não percebe esses eventos, mas eles podem ocorrer dezenas ou até centenas de vezes durante uma única noite.

Os sinais mais comuns incluem:

  • Ronco frequente
  • Sensação de sufocamento durante o sono
  • Sonolência excessiva durante o dia
  • Dores de cabeça ao acordar
  • Dificuldade de concentração

Mesmo dormindo aparentemente por tempo suficiente, o organismo não consegue atingir um descanso de qualidade.

Qualidade pode ser mais importante que quantidade

A ciência tem mostrado que a experiência subjetiva do sono está fortemente relacionada ao bem-estar diário.

Um estudo publicado na revista Journal of Sleep Research, em 30 de janeiro de 2025, liderado por Anika Werner, observou que a qualidade percebida do sono apresentou relação mais forte com o bem-estar emocional do que algumas medidas objetivas do sono. Os resultados destacam que dormir muitas horas não garante necessariamente recuperação adequada.

Outra pesquisa publicada na revista Sleep Medicine, em 30 de maio de 2025, com autoria principal de Cameron Tang, encontrou diferenças importantes entre a quantidade de sono registrada e a sensação de descanso relatada pelos participantes, mostrando que a percepção de qualidade exerce papel relevante na disposição ao acordar.

Dormir melhor vai além de dormir mais

Quando alguém acorda cansado diariamente, aumentar apenas o tempo na cama nem sempre resolve o problema.

A qualidade do sono depende de fatores como regularidade dos horários, ambiente adequado, saúde respiratória e manutenção dos ciclos naturais do organismo.

Por isso, se o cansaço persiste mesmo após noites aparentemente longas, vale a pena investigar não apenas quantas horas você dorme, mas principalmente como essas horas estão sendo aproveitadas pelo seu cérebro e pelo seu corpo.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn