A enzima do abacaxi que “desmonta” as proteínas e evita a sensação de estômago empanturrado 

A bromelina é uma enzima capaz de atuar sobre proteínas. (Imagem: Aflo via Canva)

Poucas frutas chamam tanta atenção quando o assunto é digestão quanto o abacaxi. Além do sabor marcante, ele contém uma família de enzimas conhecida como bromelina, capaz de atuar sobre proteínas.

Essa propriedade explica a fama de que comer abacaxi depois de uma refeição pesada ajudaria o estômago. Porém, existe uma diferença importante entre saber que uma enzima quebra proteínas em condições experimentais e afirmar que consumir a fruta evita a sensação de empanturramento.

A ciência permite entender melhor essa história.

A bromelina funciona como uma tesoura molecular

Proteínas são moléculas grandes formadas por cadeias de aminoácidos. Para serem aproveitadas pelo organismo, precisam passar por um processo de quebra enzimática, chamado hidrólise.

É justamente nesse ponto que a bromelina entra. Ela reúne enzimas proteolíticas, ou seja, proteínas capazes de romper ligações presentes em outras proteínas.

Quando a bromelina encontra um substrato adequado, pode produzir fragmentos proteicos menores, chamados peptídeos. Depois, outras enzimas do sistema digestivo continuam o processo até que os nutrientes possam ser absorvidos.

Portanto, a ideia de que a enzima do abacaxi “desmonta” proteínas tem uma base bioquímica real. O cuidado está em não transformar esse mecanismo em uma promessa de efeito imediato sobre a digestão.

A enzima está presente em diferentes partes do abacaxi

Bromelina: da planta à digestão. (Imagem: Fala Ciência)

A bromelina não fica restrita à polpa. Estudos mostram que diferentes partes da planta do abacaxi, incluindo caule, casca e outras estruturas, contêm enzimas proteolíticas.

A concentração e a atividade enzimática, entretanto, podem variar conforme a parte utilizada, a variedade da planta, o processamento e as condições de armazenamento.

Isso é importante porque comer a fruta não equivale a consumir um extrato concentrado de bromelina.

Além disso, as enzimas ingeridas precisam passar por um ambiente digestivo complexo, com mudanças de acidez e contato com outras substâncias. Assim, não é possível concluir que toda a atividade observada em laboratório ocorrerá da mesma maneira após uma refeição.

Estudo mediu a ação da bromelina sobre proteínas

Uma pesquisa publicada na revista Future Foods em junho de 2026, liderada por Pilanee Vaithanomsat, avaliou a utilização de bromelina derivada do abacaxi para promover a hidrólise de proteínas.

No experimento, a enzima foi utilizada para quebrar proteínas de farinha de grilo e produzir hidrolisados proteicos. Sob as condições otimizadas pelos pesquisadores, a hidrólise chegou a 80,2%, demonstrando a capacidade da bromelina de modificar estruturas proteicas.

Entretanto, há uma ressalva importante: o experimento foi realizado em um contexto de processamento de alimentos, e não em pessoas que comeram abacaxi após uma refeição. Portanto, o resultado demonstra a capacidade proteolítica da enzima, mas não prova que comer abacaxi elimine a sensação de estômago cheio.

Estômago cheio não depende apenas das proteínas

A sensação de empanturramento depois de comer não é determinada exclusivamente pela velocidade de digestão das proteínas.

Volume da refeição, quantidade de gordura, fibras, velocidade com que a pessoa come e distensão do estômago também participam dessa percepção.

Por isso, mesmo que a bromelina atue sobre proteínas, isso não significa que uma porção de abacaxi consiga neutralizar automaticamente o desconforto provocado por uma refeição muito volumosa.

Além disso, algumas pessoas podem apresentar desconforto gastrointestinal com grandes quantidades de frutas ácidas ou consumir abacaxi em excesso.

A fruta tem uma propriedade interessante, mas sem efeito milagroso

A bromelina é, de fato, uma característica bioquímica interessante do abacaxi. Suas enzimas conseguem quebrar proteínas, e essa propriedade já é explorada em pesquisas e aplicações alimentares.

Entretanto, transformar esse mecanismo em uma garantia de que o abacaxi evita o empanturramento seria ir além das evidências disponíveis.

O mais correto é entender a fruta como parte de uma alimentação variada. A bromelina explica uma das propriedades mais curiosas do abacaxi, mas a sensação de digestão leve ou pesada depende de todo o contexto da refeição, e não de uma única enzima.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn