O outro lado da Lua guardava um segredo sobre o nascimento da Terra

Chang’e-6 explora o lado oculto da Lua e revela paisagens antigas da Bacia Polo Sul-Aitken. (Imagem: CNSA/CLEP)

Durante bilhões de anos, o lado oculto da Lua permaneceu como uma das regiões menos conhecidas do Sistema Solar. Agora, fragmentos de rochas trazidos desse território inexplorado estão revelando informações capazes de transformar a compreensão sobre a evolução lunar e os eventos violentos que marcaram a juventude dos planetas.

As amostras coletadas pela missão chinesa Chang’e-6 são as primeiras obtidas diretamente dessa região lunar. A análise desses materiais indica que o bombardeio de asteroides na Lua não ocorreu como uma única fase explosiva, como algumas teorias sugeriam, mas seguiu um processo mais prolongado de redução gradual ao longo de bilhões de anos.

O estudo foi publicado na revista científica Science Advances em 2026, liderado pelo pesquisador Wan-Feng Zhang. A equipe utilizou a técnica de datação 40Ar/39Ar, um método capaz de determinar quando minerais lunares foram afetados por grandes eventos de impacto.

O lado da Lua que preservou marcas do passado cósmico

A Lua funciona como um verdadeiro arquivo geológico do Sistema Solar primitivo. Diferentemente da Terra, que constantemente modifica sua superfície por meio da erosão, vulcanismo e movimentação das placas tectônicas, o satélite natural preserva marcas de impactos ocorridos há bilhões de anos.

Essa característica transforma as crateras e rochas lunares em registros fundamentais para entender uma época em que asteroides colidiam com frequência contra os planetas recém-formados.

Porém, quase todo o conhecimento científico sobre a história lunar vinha de amostras coletadas no lado voltado para a Terra. O material do lado oculto oferece uma nova perspectiva, permitindo comparar regiões que tiveram histórias geológicas diferentes.

Fragmentos lunares revelam bilhões de anos de colisões

Os pesquisadores analisaram pequenos pedaços de rochas modificadas pelo calor extremo gerado por impactos. Os resultados indicaram eventos ocorridos entre 4,33 bilhões e 1,13 bilhão de anos atrás, formando uma linha do tempo que cobre mais de três bilhões de anos da evolução da Lua.

As descobertas sugerem que o fluxo de colisões espaciais foi diminuindo progressivamente. Essa conclusão muda a visão tradicional de que a Lua teria passado por um período extremamente curto de impactos intensos logo após sua formação.

A nova interpretação aponta para uma transição mais lenta, na qual o ambiente espacial foi se tornando gradualmente menos agressivo.

A Lua pode revelar segredos da Terra primitiva

Embora o estudo tenha como foco principal a superfície lunar, suas implicações vão muito além do nosso satélite natural. Terra e Lua possuem uma origem compartilhada e passaram pelos mesmos eventos cósmicos durante os primeiros capítulos da história do Sistema Solar.

No entanto, grande parte dos registros terrestres dessa época desapareceu devido aos processos geológicos que remodelam continuamente o planeta.

Por isso, as rochas lunares funcionam como uma janela para compreender condições que também afetaram a Terra jovem, incluindo impactos capazes de influenciar ambientes planetários e processos relacionados ao surgimento da vida.

Entre as principais contribuições dessas amostras estão:

  • melhor compreensão da frequência dos impactos de asteroides antigos;
  • reconstrução da evolução do Sistema Solar primitivo;
  • novas pistas sobre eventos que moldaram a Terra bilhões de anos atrás.

Uma nova fase da exploração lunar começou

A missão Chang’e-6 inaugurou uma etapa inédita da ciência lunar ao trazer materiais diretamente do lado oculto da Lua. Essas amostras representam uma oportunidade rara de investigar uma região que permaneceu praticamente isolada dos estudos diretos.

Com novas missões planejadas para explorar diferentes áreas lunares, cientistas esperam descobrir ainda mais detalhes sobre a formação dos planetas, a dinâmica dos asteroides e os acontecimentos que prepararam o cenário para a vida na Terra.

O estudo publicado na Science Advances (2026) mostra que, mesmo depois de bilhões de anos, pequenas rochas podem guardar grandes histórias sobre a origem e transformação dos mundos ao nosso redor.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes