Mosquito “do bem” contra a dengue: como funciona e por que ainda não chegou a todo o Brasil

Mosquito com Wolbachia reduz a transmissão da dengue. (Foto: Getty Images via Canva)
Mosquito com Wolbachia reduz a transmissão da dengue. (Foto: Getty Images via Canva)

Uma nova forma de combater a dengue está chamando atenção: o uso de mosquitos modificados que ajudam a bloquear a transmissão da doença. Esses insetos recebem uma bactéria natural chamada Wolbachia, que impede o vírus da dengue de se desenvolver dentro deles.

O método já mostrou bons resultados em algumas cidades brasileiras, mas ainda não foi adotado em larga escala no país.

O que são os “wolbitos”

Os chamados “wolbitos” são mosquitos Aedes aegypti que carregam a bactéria Wolbachia. Essa bactéria não faz mal aos seres humanos, mas muda o funcionamento do mosquito.

Com isso, ele perde a capacidade de transmitir doenças como:

  • dengue
  • zika
  • chikungunya

Quando esses mosquitos são soltos no ambiente, eles se reproduzem e passam a bactéria para seus filhotes. Aos poucos, eles substituem os mosquitos comuns.

Como esses mosquitos são produzidos

No Brasil, existe uma estrutura dedicada a produzir esses insetos em grande quantidade. A chamada biofábrica consegue gerar milhões de ovos de mosquitos por semana.

Depois de produzidos, esses ovos são:

  • colocados em pequenas cápsulas
  • enviados para as cidades
  • distribuídos em áreas específicas
  • liberados no ambiente para eclodirem

Assim começa o processo de substituição dos mosquitos transmissores da dengue.

Resultados já observados

Método biológico reduz casos de dengue no Brasil. (Foto: Fabian Montaño via Canva)
Método biológico reduz casos de dengue no Brasil. (Foto: Fabian Montaño via Canva)

Em locais onde o método já foi testado, os resultados foram bastante positivos:

  • queda de até 89% nos casos de dengue em Niterói
  • redução de cerca de 63% em Campo Grande

Esses dados mostram que a estratégia pode ser uma ferramenta importante no controle da doença.

Por que a dengue está avançando?

A dengue tem se espalhado mais no Brasil por vários motivos, e um dos principais é o aquecimento do clima. Regiões que antes eram mais frias agora também registram casos da doença.

Além disso, fatores urbanos, como água parada e alta densidade populacional, favorecem a proliferação do mosquito.

Por que a expansão ainda é lenta?

Mesmo com bons resultados, o método não está disponível em todo o país. Isso acontece por alguns motivos:

  • o processo precisa de planejamento 
  • a implantação demora para mostrar resultados
  • algumas cidades usam inseticidas que atrapalham o método
  • há dificuldades logísticas em regiões grandes ou vulneráveis

Por isso, a expansão acontece de forma gradual.

Não é solução única

Os especialistas destacam que essa técnica não substitui outras ações contra a dengue. Ela funciona como um complemento, junto com:

  • controle de criadouros
  • vacinação
  • ações de prevenção
  • monitoramento da população de mosquitos

O uso de mosquitos com a bactéria Wolbachia é uma das estratégias mais promissoras no combate à dengue. Ele já mostrou bons resultados em várias cidades, mas ainda enfrenta desafios para chegar a todo o Brasil.

Mesmo assim, representa um avanço importante na luta contra uma doença que continua crescendo no país.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn