Castanha-do-pará parece inofensiva, mas o excesso de selênio merece atenção 

Uma pequena porção pode fornecer bastante selênio ao organismo. (Imagem: Agdigitalartist via Canva)

A castanha-do-pará tem fama de alimento extremamente nutritivo, e existe uma boa razão para isso. Uma pequena quantidade já fornece selênio, mineral essencial envolvido na defesa antioxidante, no funcionamento da tireoide e em processos importantes do sistema imunológico. O problema começa justamente onde está sua maior qualidade: a concentração de selênio é muito elevada e bastante variável entre as castanhas.

Por isso, comer muitas unidades todos os dias não significa necessariamente obter mais benefícios. Ao contrário, o consumo excessivo e frequente pode aumentar a exposição ao mineral e, em situações de ingestão elevada, favorecer a selenose, quadro associado ao excesso de selênio.

A castanha concentra um mineral que o corpo precisa em pequenas doses

Infográfico explica a variabilidade do selênio na castanha-do-pará. (Imagem: Fala Ciência)

O selênio é um micronutriente, portanto o organismo necessita dele em quantidades relativamente pequenas. Ele participa da formação de selenoproteínas, algumas relacionadas à proteção das células contra danos oxidativos e ao metabolismo dos hormônios da tireoide.

A castanha-do-pará se destaca porque pode apresentar concentrações muito superiores às encontradas em diversos outros alimentos. Além disso, a quantidade de selênio não é igual em todas as castanhas. O solo, a região de cultivo e outros fatores ambientais influenciam a absorção do mineral pela árvore.

Isso torna arriscado estabelecer uma regra simples como “X castanhas por dia” para todas as pessoas. Uma castanha de determinada origem pode conter uma quantidade de selênio muito diferente de outra.

Excesso de selênio não significa mais saúde

Quando a ingestão ultrapassa as necessidades durante períodos prolongados, o selênio deixa de ser apenas um nutriente e pode se tornar um problema. A selenose pode provocar sinais como alterações gastrointestinais, gosto metálico, hálito com odor semelhante ao alho, queda de cabelo e alterações nas unhas. Em exposições mais intensas, os efeitos podem ser mais graves.

Por isso, a castanha deve ser encarada como parte de uma alimentação variada, e não como um suplemento para ser consumido em grandes quantidades.

Na prática, também é importante considerar outras fontes de selênio presentes na alimentação, como peixes, frutos do mar, carnes, ovos e cereais. Quem utiliza suplementos contendo selênio precisa ter ainda mais atenção, pois o mineral pode ser somado ao obtido pela dieta.

Estudo chama atenção para a quantidade realmente aproveitada

Um estudo publicado na revista Química Nova em 17 de março de 2026, liderado por Marília M. A. dos Santos, avaliou a composição mineral e a bioacessibilidade de nutrientes em castanhas-do-pará e castanhas de caju. Os pesquisadores utilizaram um modelo de digestão gastrointestinal em laboratório para verificar quais minerais poderiam ficar disponíveis após a digestão.

Embora o trabalho não tenha medido a bioacessibilidade do selênio, os autores destacaram especificamente a elevada concentração de selênio da castanha-do-pará ao discutir o consumo recomendado. O artigo aponta que uma porção de 15 gramas de castanha-do-pará deve ser considerada com cautela devido ao risco de ultrapassar necessidades de selênio.

O estudo também mostra por que simplesmente olhar para a quantidade total de um mineral em um alimento pode ser insuficiente. A digestão e a composição da matriz alimentar influenciam quanto daquele nutriente fica potencialmente disponível para absorção.

Veja também:

Afinal, quantas castanhas-do-pará são seguras?

Não existe um número universal que garanta a mesma quantidade de selênio para todas as pessoas, justamente porque a concentração do mineral varia muito entre as castanhas.

Por isso, o mais prudente é evitar o consumo exagerado e diário de grandes porções. Para quem costuma comer castanha-do-pará regularmente, moderação é mais importante do que quantidade.

A castanha continua sendo um alimento nutritivo e interessante. O segredo está em não transformar uma fonte concentrada de micronutrientes em excesso alimentar.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn