As galáxias espirais estão entre os objetos mais impressionantes do Universo. Seus longos braços repletos de estrelas, gás e poeira formam estruturas facilmente reconhecidas até por observadores iniciantes. No entanto, apesar de décadas de pesquisas, uma pergunta continua intrigando os astrônomos: como esses braços surgem e conseguem permanecer estáveis por bilhões de anos?
Agora, um amplo levantamento realizado com dados do telescópio espacial Euclid, da Agência Espacial Europeia (ESA), trouxe novas evidências que ajudam a esclarecer esse antigo mistério. O estudo foi publicado na revista The Astrophysical Journal em 2026, tendo Beverly J. Smith como autora principal.
Por que os braços espirais não desaparecem?
À primeira vista, parece lógico imaginar que os braços giram junto com toda a galáxia. Entretanto, a realidade é bem diferente.
As regiões mais internas de uma galáxia completam suas voltas muito mais rapidamente do que as partes externas. Se os braços fossem estruturas rígidas, eles acabariam se enrolando continuamente até desaparecerem em algumas centenas de milhões de anos.
Como isso não acontece, os astrônomos propuseram a chamada teoria das ondas de densidade. Segundo esse modelo, os braços funcionam como regiões onde estrelas e gás se concentram temporariamente, de forma semelhante a um congestionamento em uma estrada. Os objetos atravessam essas regiões, enquanto o padrão permanece por muito mais tempo.
Embora essa teoria explique parte das observações, ela ainda não responde completamente por que alguns braços conseguem persistir durante tanto tempo.
Mais de 380 mil galáxias ajudam a revelar um padrão
Para aprofundar essa investigação, os pesquisadores utilizaram imagens obtidas pelo Euclid, um telescópio projetado principalmente para estudar a expansão do Universo e a influência da energia escura.
Graças à elevada resolução das imagens, foi possível identificar com precisão o número de braços presentes em centenas de milhares de galáxias. Após filtrar os dados, a equipe observou alguns padrões importantes:
- Entre 60% e 70% das galáxias possuem dois braços espirais predominantes;
- Cerca de 15% a 20% apresentam três braços principais;
- Galáxias com apenas um braço são extremamente raras;
- Grande parte das demais apresenta estruturas complexas, difíceis de classificar.
Esses resultados mostram que as galáxias de dois braços representam, de longe, o tipo mais comum observado pelo levantamento.
O centro da galáxia influencia sua aparência
Outro resultado importante envolve a região central das galáxias. Os pesquisadores verificaram que sistemas com bojos centrais mais massivos, como ocorre na Via Láctea, tendem a desenvolver dois braços espirais bem definidos.
Já galáxias com centros menos concentrados frequentemente exibem diversos braços distribuídos ao redor do disco.
Esse comportamento coincide com previsões feitas por modelos computacionais, sugerindo que a distribuição de massa exerce papel decisivo na organização dessas estruturas ao longo do tempo.
Os braços podem revelar a matéria escura
Um dos aspectos mais interessantes do estudo é que o número de braços pode fornecer pistas sobre a matéria escura, componente invisível que representa a maior parte da massa das galáxias.
Como a matéria escura influencia a distribuição gravitacional, ela também interfere na dinâmica do disco galáctico e na formação dos padrões espirais. Assim, analisar a quantidade e o formato dos braços pode se tornar uma ferramenta indireta para investigar essa substância que permanece invisível aos telescópios.
Além disso, a pesquisa mostrou que galáxias com três braços costumam apresentar taxas mais elevadas de formação estelar, enquanto sistemas dominados por dois braços geralmente exibem uma atividade de nascimento de estrelas menos intensa.
Uma peça importante para entender a evolução das galáxias
Os autores destacam que os braços espirais apresentam uma enorme variedade de formas, incluindo ramificações e estruturas intermediárias que ainda desafiam as classificações tradicionais.
Mesmo assim, os resultados publicados na The Astrophysical Journal, por Beverly J. Smith e colaboradores em 2026, representam um avanço importante para compreender como essas estruturas surgem, evoluem e permanecem estáveis ao longo da história cósmica. Com o contínuo envio de dados pelo Euclid, os astrônomos esperam construir modelos cada vez mais precisos sobre a evolução das galáxias e o papel da matéria escura na arquitetura do Universo.
