Entre as descobertas mais intrigantes do Telescópio Espacial James Webb (JWST) estão objetos tão pequenos e avermelhados que ganharam um apelido curioso: “Pequenos Pontos Vermelhos”, ou LRDs. Quatro pares desses objetos foram encontrados extremamente próximos uns dos outros no universo jovem, levantando uma possibilidade fascinante: alguns deles podem representar buracos negros em galáxias que estão caminhando para uma fusão.
A descoberta é importante porque toca em um dos grandes enigmas da astronomia. Como buracos negros supermassivos conseguiram atingir milhões ou bilhões de massas solares quando o universo ainda era tão jovem?
O novo estudo sugere que encontros entre galáxias e possíveis fusões de seus buracos negros podem ter desempenhado um papel nesse crescimento acelerado.
Pontos minúsculos que escondem um fenômeno gigantesco
Os LRDs foram identificados graças à capacidade do James Webb de observar o universo distante em luz infravermelha. Apesar de parecerem pequenos pontos nas imagens, esses objetos podem estar associados a buracos negros supermassivos em rápida fase de crescimento, alimentados pela matéria ao seu redor.
Até então, havia uma dificuldade importante: dois objetos muito próximos poderiam parecer apenas um único ponto nas imagens. Dessa forma, uma possível dupla de buracos negros poderia passar despercebida.
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Entrar no Canal do WhatsAppPara contornar esse problema, os pesquisadores desenvolveram uma técnica capaz de analisar a cor de cada pixel da imagem, em vez de considerar somente as características gerais do objeto.
Essa mudança permitiu procurar sinais de LRDs duplos que poderiam estar escondidos dentro de uma estrutura aparentemente única.
Quatro pares apareceram onde quase ninguém esperava
A análise revelou quatro pares de candidatos a LRDs duplos. Eles estavam separados por distâncias que variavam de alguns milhares a algumas dezenas de milhares de anos-luz.
Para ter uma ideia da escala, a Via Láctea possui cerca de 100 mil anos-luz de extensão. Portanto, esses pares estavam separados por distâncias relativamente pequenas em comparação com o tamanho de uma galáxia inteira.
Dois dos sistemas também apresentaram uma evidência adicional. Observações espectroscópicas indicaram que os componentes de cada par estavam provavelmente na mesma distância cosmológica, diminuindo a possibilidade de serem objetos sem relação física apenas alinhados na direção da Terra.
As separações projetadas desses dois sistemas foram estimadas em aproximadamente 1,64 e 7,36 quiloparsecs, equivalentes a cerca de 5.300 e 24 mil anos-luz.
A coincidência cósmica parece improvável
Encontrar dois objetos próximos no céu não significa necessariamente que eles estejam próximos no espaço. Eles poderiam estar em regiões completamente diferentes do universo e apenas parecer vizinhos para quem observa da Terra.
Por isso, os pesquisadores fizeram uma análise estatística para estimar a possibilidade de os quatro pares serem apenas alinhamentos ocasionais.
O resultado chamou atenção: a distribuição observada dos LRDs duplos é difícil de explicar somente pelo acaso. O estudo encontrou um excesso de agrupamento em pequenas escalas que chega a aproximadamente 50 vezes o esperado a partir de uma extrapolação das correlações observadas em separações maiores.
Isso sugere que esses objetos podem realmente estar associados a sistemas próximos.
Uma pista para o crescimento dos primeiros gigantes
Se os LRDs estiverem ligados a buracos negros supermassivos em crescimento, a proximidade entre eles pode representar uma etapa anterior a uma futura fusão.
Quando duas galáxias interagem, enormes quantidades de gás podem ser deslocadas em direção às suas regiões centrais. Esse material fornece combustível para os buracos negros, aumentando sua atividade e potencialmente acelerando seu crescimento.
Assim, uma sequência possível seria:
- Galáxias se aproximam: a interação altera a distribuição de gás e estrelas.
- Buracos negros crescem: mais matéria pode ser direcionada para as regiões centrais.
- Os sistemas permanecem próximos: os LRDs aparecem como pares compactos.
- Fusão futura: os buracos negros podem eventualmente se unir.
Esse cenário ainda precisa ser demonstrado de maneira definitiva, mas oferece uma possível explicação para a presença de buracos negros extremamente massivos em épocas muito antigas do universo.
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A descoberta pode ser apenas o começo
O estudo foi publicado em 31 de agosto de 2026 na revista científica Publications of the Astronomical Society of Japan, com Takumi S. Tanaka como primeiro autor. Intitulado Hidden in Pixels. I. Discovery of dual “little red dots” indicates excess clustering on kilo-parsec scales, o trabalho apresenta o método de análise por pixels e os quatro candidatos a sistemas duplos.
Os pesquisadores destacam que ainda é necessário estudar esses sistemas com maior profundidade e aplicar o método a uma amostra muito maior de LRDs.
Se futuras observações confirmarem que esses pares realmente representam galáxias em processo de interação e buracos negros destinados a se fundir, os pequenos pontos avermelhados poderão ajudar a responder uma questão gigantesca: como os primeiros buracos negros supermassivos cresceram tão rapidamente no universo primordial.
E há uma possibilidade ainda mais interessante. Caso essas fusões tenham ocorrido em grande quantidade, os eventos poderiam deixar ondas gravitacionais, oferecendo no futuro uma nova maneira de investigar esses encontros extremos ocorridos quando o universo ainda estava em sua infância.
