Ingrediente escondido nos ultraprocessados altera a forma como o seu corpo absorve nutrientes

Aditivos de alimentos industrializados podem prejudicar seu intestino. (Foto: Fala Ciência via Gemini)
Aditivos de alimentos industrializados podem prejudicar seu intestino. (Foto: Fala Ciência via Gemini)

Você olha o rótulo de um alimento e presta atenção nas calorias, no açúcar ou na quantidade de gordura. Mas existe um grupo de ingredientes que costuma passar despercebido e que vem despertando o interesse dos cientistas: os emulsificantes.

Presentes em sorvetes, molhos, pães industrializados, sobremesas, bebidas vegetais e inúmeros produtos ultraprocessados, esses aditivos são utilizados para melhorar textura, estabilidade e aparência. O problema é que algumas pesquisas recentes sugerem que determinados emulsificantes podem interagir com a microbiota intestinal e com a barreira protetora do intestino, afetando processos importantes para a saúde.

E isso pode ter consequências que vão muito além da digestão.

Os aditivos que ajudam a indústria, mas preocupam os pesquisadores

Entre os emulsificantes mais estudados estão a carboximetilcelulose (CMC) e o polissorbato 80 (P80). Essas substâncias são amplamente utilizadas para impedir a separação dos ingredientes e prolongar a vida útil dos produtos.

Embora sejam considerados seguros dentro dos limites regulatórios, cientistas têm investigado seus possíveis efeitos sobre o ambiente intestinal quando consumidos com frequência ao longo do tempo.

O intestino não é apenas um órgão de absorção. Ele abriga trilhões de microrganismos que participam da digestão, da produção de metabólitos e até do aproveitamento de nutrientes essenciais.

Quando esse ecossistema sofre alterações, diversos processos biológicos podem ser impactados.

A barreira intestinal é mais importante do que parece

A parede intestinal funciona como um filtro altamente seletivo. Ela permite a entrada de nutrientes e impede a passagem de substâncias potencialmente prejudiciais.

Para cumprir essa função, o intestino conta com uma camada de muco e estruturas chamadas junções estreitas, que mantêm as células firmemente conectadas.

Alguns estudos sugerem que certos emulsificantes podem interferir nesse sistema de proteção. Quando a integridade da barreira intestinal é alterada, o equilíbrio entre absorção e proteção também pode sofrer mudanças.

Além disso, alterações na microbiota podem influenciar a disponibilidade de nutrientes importantes para o organismo, incluindo vitaminas produzidas ou moduladas pelas bactérias intestinais, como algumas vitaminas do complexo B e a vitamina K.

O que os estudos recentes descobriram?

Em janeiro de 2025, um estudo publicado na revista Food and Chemical Toxicology, liderado por Alicia Bellanco, investigou os efeitos da carboximetilcelulose e do polissorbato 80 em um modelo que simulava a microbiota intestinal humana.

Os pesquisadores observaram que ambos os emulsificantes alteraram a composição microbiana e apresentaram impacto sobre a integridade da barreira epitelial intestinal. Os efeitos variaram conforme a substância e a concentração utilizada, mas os resultados contribuíram para aumentar o interesse científico sobre a relação entre emulsificantes e saúde intestinal.

Outro trabalho publicado em junho de 2025 na revista Communications Biology, com autoria principal de Ángela Bravo-Núñez, analisou a influência de diferentes emulsificantes sobre a saúde intestinal e a biodisponibilidade da vitamina D. Os resultados mostraram que a escolha do emulsificante pode afetar tanto parâmetros relacionados ao intestino quanto o aproveitamento desse nutriente pelo organismo.

O que isso tem a ver com vitaminas?

A absorção de nutrientes depende de vários fatores funcionando em conjunto.

Entre eles estão:

• Integridade da mucosa intestinal.

• Equilíbrio da microbiota.

• Digestão adequada de gorduras.

• Transporte eficiente dos nutrientes para a corrente sanguínea.

Quando há alterações persistentes nesses mecanismos, o aproveitamento de vitaminas e minerais pode não ocorrer da maneira ideal. Isso não significa que um alimento contendo emulsificantes causará deficiência nutricional, mas mostra como a qualidade global da alimentação influencia processos muito mais complexos do que parecem.

O que vale a pena fazer no dia a dia?

A melhor estratégia continua sendo priorizar alimentos minimamente processados na maior parte das refeições.

Isso inclui:

• Frutas.

• Verduras e legumes.

• Feijões e outras leguminosas.

• Cereais integrais.

• Fontes de proteína pouco processadas.

Quanto menor a dependência de ultraprocessados, menor tende a ser a exposição contínua a diversos aditivos alimentares.

A ciência ainda busca entender completamente os efeitos dos emulsificantes no organismo humano. No entanto, os estudos mais recentes mostram que esses ingredientes, muitas vezes ignorados nos rótulos, podem exercer uma influência maior sobre a saúde intestinal do que se imaginava há alguns anos.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn