Durante muito tempo, acreditamos que a capacidade de contar era uma das características que nos separavam dos outros animais. Afinal, números, matemática e planejamento parecem exigir um nível de raciocínio avançado que seria exclusivo da mente humana.
Mas a ciência acaba de mostrar que essa fronteira pode não ser tão rígida quanto imaginávamos.
Um estudo recente revelou que os corvos-da-carniça (Corvus corone) conseguem produzir deliberadamente um número específico de vocalizações entre um e quatro grasnados, de acordo com estímulos apresentados pelos pesquisadores. Mais surpreendente ainda: as aves parecem planejar a quantidade de sons antes mesmo de emitir o primeiro chamado.
A descoberta oferece uma nova perspectiva sobre a inteligência animal e ajuda a explicar por que os corvos são considerados algumas das aves mais cognitivamente sofisticadas do planeta.
O pássaro que desafiou uma antiga crença científica
Os corvos já eram conhecidos por suas habilidades impressionantes. Estudos anteriores mostraram que eles conseguem usar ferramentas, resolver problemas complexos, reconhecer rostos humanos e até planejar ações futuras.
No entanto, a nova pesquisa foi além.
Em maio de 2024, um estudo publicado na revista Science, liderado por Diana A. Liao, investigou se corvos poderiam controlar conscientemente a quantidade de vocalizações produzidas em resposta a diferentes estímulos visuais e auditivos.
Os pesquisadores treinaram três aves para associar determinados sinais a números específicos. Quando recebiam um estímulo relacionado aos valores de um a quatro, os corvos precisavam emitir exatamente aquela quantidade de grasnados antes de indicar que haviam concluído a tarefa.
Os resultados mostraram que as aves conseguiram realizar o desafio com elevada precisão, demonstrando uma capacidade de enumeração vocal raramente observada em animais não humanos.
Muito mais do que repetir sons
O aspecto mais fascinante do experimento foi que os corvos não pareciam simplesmente reagir de forma automática.
As análises mostraram que características do primeiro grasnado já continham informações sobre quantas vocalizações seriam produzidas ao final da sequência.
Isso sugere que as aves estabeleciam previamente um objetivo numérico antes de iniciar a tarefa, algo que envolve planejamento cognitivo.
Em outras palavras, os corvos não estavam apenas emitindo sons aleatórios. Eles pareciam ter uma representação mental da quantidade desejada.
O cérebro dos corvos guarda uma surpresa
Uma das razões para esse desempenho está na estrutura cerebral dessas aves.
Embora os pássaros não possuam um córtex cerebral igual ao dos mamíferos, eles apresentam regiões equivalentes do ponto de vista funcional. Pesquisas anteriores conduzidas pelo grupo do neurocientista Andreas Nieder já haviam identificado neurônios especializados em processar quantidades numéricas no cérebro dos corvos.
Essas células respondem seletivamente a diferentes números de objetos, funcionando de maneira semelhante aos chamados neurônios numéricos observados em primatas.
Isso significa que, quando um corvo distingue duas, três ou quatro unidades, seu cérebro ativa padrões específicos relacionados à quantidade percebida.
Uma habilidade parecida com a de crianças pequenas
Os cientistas observaram outro detalhe curioso.
Os erros cometidos pelos corvos eram semelhantes aos erros de crianças humanas que ainda estão aprendendo a contar. Quando falhavam, as aves geralmente produziam um número próximo ao correto, e não valores totalmente aleatórios.
Esse comportamento sugere o uso de um sistema cognitivo conhecido como sistema numérico aproximado, presente também em humanos antes da aprendizagem formal da matemática.
O que essa descoberta muda?
A pesquisa amplia nossa compreensão sobre a evolução da inteligência.
Ela mostra que habilidades ligadas à compreensão de quantidades podem ter surgido de forma independente em diferentes grupos animais. Além disso, sugere que os alicerces biológicos que deram origem à matemática humana talvez sejam muito mais antigos do que se imaginava.
Os corvos não resolvem equações nem estudam aritmética. Porém, a capacidade de planejar e produzir quantidades exatas de vocalizações demonstra que conceitos numéricos básicos não pertencem apenas à nossa espécie.
E isso transforma completamente a forma como enxergamos a mente desses animais extraordinários.

