O plástico flutuante nos oceanos representa uma das maiores ameaças aos ecossistemas marinhos. No entanto, localizar esses resíduos em alto-mar sempre foi um enorme desafio devido à sua ampla dispersão e à imensidão das áreas oceânicas. Agora, uma combinação de câmeras inteligentes e inteligência artificial (IA) está mudando esse cenário. Um novo estudo apresenta o maior conjunto de dados já produzido sobre grandes objetos plásticos flutuantes, oferecendo uma visão muito mais detalhada da distribuição desse tipo de poluição ao redor do planeta.
Publicado na revista Environmental Research Communications em 2026, o trabalho liderado por Robin de Vries descreve os primeiros cinco anos de operação do Sistema Automatizado de Imagens de Detritos (ADIS), uma tecnologia capaz de monitorar continuamente os oceanos e identificar resíduos plásticos em grande escala.
Milhões de imagens para enxergar um problema invisível
Entre 2019 e 2024, o sistema percorreu os oceanos Pacífico, Atlântico e Índico, registrando mais de 27 milhões de fotografias, o equivalente a cerca de 165 terabytes de dados.
Essas imagens cobriram aproximadamente 14.500 quilômetros quadrados da superfície oceânica e permitiram identificar mais de 20 mil grandes objetos plásticos flutuantes.
Após a captura das imagens, um modelo de aprendizado profundo analisou automaticamente todo o material, selecionando fotografias que continham possíveis resíduos. Em seguida, especialistas realizaram uma validação manual para confirmar as detecções.
O resultado foi a criação de um banco de dados aberto, que permite acompanhar a distribuição do plástico em diferentes regiões dos oceanos.
Como funciona o sistema ADIS?
A primeira versão do ADIS era relativamente simples. Ela utilizava uma câmera GoPro instalada na lateral de embarcações que navegavam regularmente pelos oceanos.
As fotografias eram registradas automaticamente em intervalos programados e armazenadas para análise posterior.
Com a evolução da tecnologia, surgiu o ADIS 2.0, uma versão muito mais sofisticada.
O novo sistema é capaz de:
- Reconhecer automaticamente objetos plásticos;
- Registrar fotografias detalhadas dos resíduos;
- Associar cada imagem às coordenadas de GPS;
- Processar e transmitir dados de forma automatizada;
- Operar continuamente por longos períodos.
Essa automação amplia significativamente a capacidade de monitoramento e reduz a necessidade de intervenção humana.
Resultados ajudam a entender a poluição marinha
Para verificar a precisão do sistema, os pesquisadores compararam seus resultados com amostragens realizadas por redes de arrasto e drones durante uma expedição na Grande Mancha de Lixo do Pacífico.
Embora o ADIS tenha subestimado a quantidade absoluta de resíduos, essa diferença mostrou um comportamento consistente, permitindo aos pesquisadores aplicar fatores de correção estatística.
Além disso, o sistema acompanhou corretamente as variações na concentração de plástico observadas pelos métodos tradicionais, demonstrando sua utilidade para identificar regiões com maior acúmulo de detritos.
Um mapa dinâmico para proteger os oceanos
Desde 2024, o ADIS 2.0 já ampliou significativamente a cobertura global. Nos dois primeiros anos de operação, foram mapeados mais 39.400 quilômetros quadrados, elevando o total monitorado para quase 54 mil quilômetros quadrados.
Esse crescimento permite construir não apenas um retrato estático da poluição marinha, mas também acompanhar sua evolução ao longo dos anos.
Com séries históricas cada vez mais completas, será possível identificar tendências, monitorar a eficácia de programas de limpeza e compreender melhor o deslocamento do plástico impulsionado pelas correntes oceânicas.
O estudo publicado na Environmental Research Communications, liderado por Robin de Vries em 2026, demonstra como a integração entre inteligência artificial, visão computacional e monitoramento ambiental pode transformar a pesquisa sobre a poluição marinha. Ao gerar o maior banco de dados já produzido sobre plástico flutuante nos oceanos, essa tecnologia oferece uma ferramenta valiosa para orientar estratégias globais de conservação e recuperação dos ecossistemas marinhos.
