Corais estão ficando sem tempo para se recuperar à medida que os oceanos aquecem 

O calor dos oceanos ameaça a recuperação dos corais (Imagem: Fala Ciência)

Um recife de coral consegue sobreviver a ciclones, branqueamentos e outros impactos. Porém, existe uma condição indispensável para essa recuperação: tempo. Com o aquecimento dos oceanos, esse intervalo está diminuindo, enquanto os episódios de estresse se tornam mais frequentes.

O relatório Status of Coral Reefs of the World: 2025, elaborado pela Global Coral Reef Monitoring Network, reuniu mais de 21 milhões de observações provenientes de aproximadamente 90 mil levantamentos realizados em mais de 120 países, territórios e economias.

O intervalo entre os impactos está menor

Os dados revelam uma queda de 9,5% na cobertura global de corais duros. A média passou de 30,2% entre 1980 e 2009 para 27,3% no período de 2020 a 2024.

Grande parte dessa perda está relacionada aos eventos globais de branqueamento, provocados por ondas de calor marinhas associadas às mudanças climáticas.

Ondas de calor deixam os corais mais vulneráveis (Imagem: Fala Ciência)

Além disso, a frequência desses episódios aumentou. Antes, grandes eventos de branqueamento aconteciam aproximadamente uma vez por década. Desde 2010, passaram a ocorrer, em média, a cada cinco ou seis anos.

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O problema é que muitos corais precisam de pelo menos cinco anos para atingir a maturidade e começar a se reproduzir. Assim, alguns recifes podem sofrer um novo impacto antes que uma nova geração consiga se estabelecer.

As algas podem ocupar o lugar dos corais

A recuperação também enfrenta outro obstáculo. Quando os corais morrem, macroalgas podem ocupar os espaços disponíveis, dificultando a fixação e o crescimento de novos corais.

O relatório identificou um aumento de aproximadamente 44% na cobertura média global de macroalgas em comparação com o período histórico analisado.

Essa mudança pode transformar a estrutura do ecossistema e afetar peixes e outros organismos que dependem dos corais para obter abrigo, alimento e áreas de reprodução.

O recife pode se recuperar, mas talvez diferente

Existe capacidade de recuperação. Entre 2017 e 2019, por exemplo, a cobertura global de corais duros aumentou cerca de 6% após um grande evento de branqueamento. Entretanto, novas ondas de calor podem eliminar esses ganhos.

Por isso, além de reduzir as emissões de gases de efeito estufa, medidas locais também são importantes. Melhorar a qualidade da água e reduzir a poluição pode diminuir pressões adicionais sobre os recifes.

O desafio agora é garantir que os corais tenham tempo e condições ambientais adequadas para se recuperar antes que o próximo evento extremo chegue.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes