Durante milhares de anos, os mamutes-lanosos fizeram parte da paisagem gelada da Eurásia e da América do Norte. Esses gigantes eram uma fonte valiosa de carne, gordura, pele, ossos e marfim para grupos humanos do Paleolítico. Agora, uma análise de DNA antigo encontrou uma pista surpreendente sobre como esses animais eram explorados.
Ao investigar o sexo genético de 521 mamutes-lanosos, pesquisadores descobriram que os grandes depósitos de ossos associados a humanos eram formados principalmente por fêmeas. A diferença é tão expressiva em relação aos restos encontrados em ambientes naturais que ajuda a esclarecer uma antiga dúvida arqueológica: esses enormes acúmulos surgiram por processos naturais ou pela ação humana?
Uma diferença que o DNA conseguiu revelar
A equipe comparou mamutes encontrados em dois tipos de contexto. De um lado estavam restos espalhados em ambientes considerados naturais. Do outro, havia ossos provenientes de 11 sítios arqueológicos associados a atividades humanas, com idades aproximadas entre 30 mil e 20 mil anos.
O contraste chamou atenção.
Entre os mamutes de depósitos naturais, cerca de 66% eram machos e 34% eram fêmeas. Já nos grandes acúmulos associados a humanos, aproximadamente 70% eram fêmeas e apenas 30% eram machos.
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Entrar no Canal do WhatsAppEssa diferença dificilmente parece ser aleatória. Em ambientes naturais, machos adultos poderiam estar mais sujeitos a morrer sozinhos em armadilhas naturais, como depressões do terreno e deslizamentos. Como resultado, seus restos teriam maior probabilidade de acabar preservados e encontrados pelos pesquisadores.
Nos sítios ligados aos humanos, porém, o padrão se inverte.
A pista genética aponta para a atividade humana
A pesquisa foi liderada por Hannah M. Moots e publicada na revista Current Biology em 30 de julho de 2026. O trabalho utilizou dados genômicos de 521 mamutes, dos quais 448 tiveram seu material genético sequenciado pela primeira vez.
O resultado indica que a predominância de fêmeas nos acúmulos arqueológicos ocorreu de maneira consistente em diferentes locais. Isso fornece uma forte evidência de que a atividade humana teve papel central na formação desses depósitos de ossos.
Mas isso não significa necessariamente que os caçadores escolhessem uma fêmea individualmente sempre que encontravam um mamute.
Uma possibilidade é que as fêmeas vivessem em manadas, enquanto os machos adultos tendessem a levar uma vida mais solitária. Assim, grupos de fêmeas poderiam ser encontrados com maior frequência ou apresentar padrões de deslocamento mais previsíveis.
Além disso, os humanos não dependiam apenas da caça. Carcaças de animais mortos naturalmente também poderiam ser aproveitadas, o que torna a interpretação do comportamento ainda mais complexa.
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Uma descoberta genética rara apareceu no caminho
A análise trouxe ainda uma surpresa adicional. Entre os mamutes estudados, os pesquisadores identificaram um indivíduo da Ilha Wrangel com uma configuração cromossômica incomum, conhecida como mosaicismo X0/XX.
Nessa condição, diferentes células do organismo apresentam quantidades distintas do cromossomo X. Em humanos, uma alteração desse tipo está associada à síndrome de Turner.
É a primeira vez que esse tipo de característica é documentado geneticamente em uma espécie extinta, acrescentando uma descoberta inesperada ao estudo sobre a relação entre humanos e mamutes.
No conjunto, o trabalho mostra como o DNA antigo pode fazer mais do que reconstruir espécies extintas. Ele também permite investigar comportamentos humanos, estratégias de caça e até mesmo a origem de sítios arqueológicos formados há dezenas de milhares de anos.
