Crânio raro de dodô revela como a ave extinta percebia o mundo

Crânio raro de dodô preservado no Museu de História Natural da Dinamarca. (Imagem: Museu de História Natural da Dinamarca)

Durante séculos, o dodô foi retratado como uma ave desajeitada, curiosa e pouco adaptada à vida selvagem. Agora, um dos objetos mais raros ligados à espécie está ajudando a mudar essa imagem. Pesquisadores analisaram em detalhes um dos apenas dois crânios completos de dodô conhecidos no mundo e encontraram pistas sobre como essa ave realmente percebia o ambiente.

O exemplar estudado está preservado no Museu de História Natural da Dinamarca, em Copenhague. Por meio de tomografia computadorizada de alta resolução, os cientistas conseguiram observar estruturas internas do crânio sem tocar ou danificar o fóssil.

A análise revelou características que sugerem um animal sensorialmente mais complexo do que a representação tradicional do dodô costuma indicar.

Estrutura interna do crânio permitiu reconstruir digitalmente a região onde ficava o cérebro 

Embora o cérebro do dodô tenha desaparecido há séculos, sua presença deixou marcas na estrutura óssea que o envolvia. Essas impressões permitiram aos pesquisadores reconstruir digitalmente o chamado endocasto craniano, uma representação do espaço ocupado pelo cérebro.

A técnica produziu um modelo tridimensional detalhado do interior do crânio. Além disso, os cientistas analisaram dados de três crânios de dodô, incluindo os dois únicos exemplares completos conhecidos atualmente.

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Essa comparação foi especialmente importante porque permitiu separar características realmente associadas ao dodô de possíveis variações individuais.

Para interpretar os resultados, os pesquisadores compararam as estruturas do animal extinto com as de seus parentes vivos mais próximos, principalmente pombos e rolas.

Dodô tinha sentidos mais sofisticados do que se imaginava

Maquete e réplica do crânio mostram como era o extinto dodô. (Imagem: Museu de História Natural da Dinamarca)

A reconstrução revelou uma combinação incomum de características sensoriais. Uma das principais pistas está relacionada ao olfato.

A anatomia cerebral sugere que o dodô poderia ter apresentado uma capacidade olfativa mais desenvolvida do que a observada em seus parentes modernos. Essa característica pode ter sido útil para localizar alimentos ou explorar diferentes recursos disponíveis na ilha de Maurício.

Outro aspecto chamou atenção: o enorme bico do dodô.

A estrutura craniana indica que o animal poderia utilizar o bico não apenas para capturar ou manipular alimentos, mas também como uma espécie de ferramenta sensorial, obtendo informações táteis do ambiente.

Além disso, a organização de determinadas estruturas associadas ao cérebro sugere que o dodô talvez apresentasse uma rotina de atividade mais flexível do que simplesmente permanecer ativo durante o dia. O animal poderia ter explorado períodos próximos ao amanhecer e ao entardecer.

Estudo questiona a antiga imagem de uma ave desajeitada e pouco adaptada 

O estudo também ajuda a questionar a antiga imagem de que o dodô era simplesmente uma ave pouco inteligente que caminhava inevitavelmente rumo à extinção.

Não há evidências no trabalho de que o dodô tivesse capacidades cognitivas inferiores às de seus parentes vivos. Em vez disso, os dados apontam para uma espécie que desenvolveu adaptações próprias ao longo de milhões de anos em um ambiente insular.

Maurício, no oceano Índico, ofereceu condições evolutivas muito particulares. Sem grandes predadores terrestres, o dodô desenvolveu características distintas das observadas em aves continentais.

Assim, seu grande corpo, ausência de voo e adaptações sensoriais podem ser entendidos como parte de uma trajetória evolutiva específica, e não simplesmente como sinais de incapacidade.

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Tomografia de alta resolução permitiu reconstruir estruturas internas do crânio do dodô 

A pesquisa foi publicada em 2026 no Zoological Journal of the Linnean Society, tendo Christy Anna Hipsley como autora principal. O estudo apresenta uma análise comparativa da anatomia craniana do dodô e do solitário.

O resultado mostra como tecnologias modernas podem extrair informações de espécimes históricos sem destruí-los. Neste caso, um crânio preservado durante séculos ganhou uma nova função científica.

Ainda não é possível determinar exatamente como o dodô se comportava apenas observando sua anatomia. No entanto, a combinação de tomografia, reconstrução digital e comparação com aves vivas permite aproximar a ciência de uma resposta.

Mais do que revelar um detalhe sobre uma ave extinta, o estudo ajuda a reconstruir o mundo sensorial de uma espécie que desapareceu no final do século XVII. E, ao fazer isso, transforma um dos símbolos mais conhecidos da extinção em um animal muito mais complexo do que a história popular costuma contar.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes