O ancestral dos humanos talvez escalasse árvores de um jeito inesperado

Macacos selvagens revelam pistas sobre como o ancestral humano podia escalar árvores (Imagem: R. J. Mathar – Licença CC BY-SA 4.0)

Há milhões de anos, antes da linhagem humana dominar a locomoção bípede, nossos ancestrais provavelmente ainda dependiam das árvores para sobreviver. Agora, uma descoberta envolvendo macacos selvagens da África Ocidental pode mudar a maneira como imaginamos o último ancestral comum entre humanos e chimpanzés.

Humanos e chimpanzés seguiram caminhos evolutivos distintos há aproximadamente 6 a 7 milhões de anos. Porém, ainda não sabemos exatamente como era o ancestral que compartilhavam. Uma das principais dúvidas envolve justamente sua relação com as árvores.

Um pé diferente também pode escalar

Pesquisadores observaram mangabeis-fuliginosos (Cercocebus atys) na Floresta de Taï, na Costa do Marfim, registrando seus movimentos durante a escalada vertical de árvores.

A surpresa apareceu quando os cientistas analisaram a movimentação dos pés. Esses macacos não possuem a mesma flexibilidade no tornozelo observada nos chimpanzés. Mesmo assim, conseguem subir verticalmente por troncos finos para procurar alimento, escapar de ameaças ou descansar.

Medição de ângulos da perna de mangabei durante escalada vertical na Floresta de Taï. (Imagem: Fannin, Luke D., Anais da Academia Nacional de Ciências (2026))

A descoberta mostra que diferentes estruturas anatômicas podem realizar uma função semelhante. Nos chimpanzés, o tornozelo pode apresentar cerca de 45 graus de flexão durante a escalada. Nos mangabeis, uma movimentação próxima de 46 graus foi registrada, mas grande parte dela ocorre no meio do pé, e não exclusivamente no tornozelo.

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A evolução encontrou outra solução

Esse tipo de adaptação é um exemplo de convergência funcional, quando estruturas diferentes permitem desempenhar uma tarefa semelhante. A pesquisa foi publicada na revista Proceedings of the National Academy of Sciences, tendo Luke D. Fannin como autor principal, em 17 de agosto de 2026.

O resultado é especialmente importante para a paleoantropologia porque os fósseis preservam principalmente estruturas ósseas. Ao observar apenas a anatomia, pesquisadores podem concluir que determinado primata não seria capaz de realizar certos movimentos.

Os mangabeis mostram que essa interpretação pode ser limitada. Um pé diferente do chimpanzé não significa necessariamente incapacidade para escalar.

Uma nova pista sobre nossos ancestrais

A descoberta não revela exatamente qual era a aparência do último ancestral comum de humanos e chimpanzés. Entretanto, abre uma possibilidade importante: ele poderia ter apresentado pés mais semelhantes aos de macacos e, ainda assim, possuir excelente capacidade de escalada vertical.

Isso também ajuda a compreender a importância da vida arborícola na evolução dos primatas. Mãos, pés, punhos e tornozelos foram moldados durante milhões de anos pela interação com ambientes florestais.

Para descobrir como nossos ancestrais realmente se movimentavam, serão necessários mais fósseis e análises biomecânicas. Por enquanto, um pequeno macaco da África Ocidental mostra que a evolução pode encontrar mais de uma maneira de subir até o topo de uma árvore.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes