3I/ATLAS pode ter nascido em um dos lugares mais frios do espaço, diz estudo

Hubble registra o cometa interestelar 3I/ATLAS em nova observação. (Imagem: NASA, ESA, STScI, D. Jewitt (UCLA), M.-T. Hui (Observatório Astronômico de Xangai). Processamento da imagem: J. DePasquale (STScI))

Um visitante cósmico que atravessou o Sistema Solar está oferecendo aos astrônomos algo raro: pistas químicas sobre um lugar que não pertence à nossa vizinhança galáctica. O 3I/ATLAS, apenas o terceiro objeto interestelar já identificado, parece carregar em sua composição as marcas de um ambiente extremamente frio.

A descoberta ajuda a reconstruir uma parte da história desse cometa antes mesmo de ele chegar perto do Sol. E, justamente por ter se formado ao redor de outra estrela, o objeto funciona como uma espécie de amostra natural de outro sistema planetário.

O rastro químico deixado pelo misterioso 3I/ATLAS 

Como a composição química do cometa 3I/ATLAS revela sua origem fria. (Imagem: Fala Ciência)

Para investigar a origem do 3I/ATLAS, os pesquisadores observaram sua cauda de plasma, região formada quando a radiação e o vento solar interagem com o material liberado pelo cometa.

O trabalho utilizou o instrumento WEAVE-LIFU, instalado no Telescópio William Herschel, de 4,2 metros, nas Ilhas Canárias. A técnica permitiu identificar simultaneamente cinco tipos de íons na cauda:

  • N₂⁺, relacionado ao nitrogênio molecular;
  • CO⁺, associado ao monóxido de carbono;
  • CO₂⁺;
  • H₂O⁺;
  • CH⁺.

A comparação entre o nitrogênio molecular e o monóxido de carbono foi especialmente importante. A proporção encontrada indica que o 3I/ATLAS é mais rico em N₂ do que os cometas conhecidos do Sistema Solar.

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Esse detalhe químico é valioso porque a quantidade de nitrogênio molecular preservada em um corpo gelado pode estar relacionada às temperaturas existentes durante sua formação.

Um cometa nascido longe de sua estrela

Os resultados indicam que o 3I/ATLAS provavelmente se formou em um ambiente mais frio que aproximadamente 240 °C negativos.

Isso significa que seu local de nascimento pode ter ficado muito distante da estrela que originalmente dominava seu sistema planetário. Em regiões tão afastadas, temperaturas extremamente baixas permitem que moléculas altamente voláteis permaneçam congeladas durante a formação dos corpos celestes.

Assim, a composição observada hoje pode funcionar como uma espécie de registro químico de seu passado.

A importância vai além do próprio 3I/ATLAS. Como ele não nasceu ao redor do Sol, suas características permitem comparar diretamente os materiais produzidos em diferentes ambientes planetários.

A cauda também conta parte da história

Os pesquisadores ainda acompanharam como os íons se distribuíam ao longo da cauda de plasma.

Esse tipo de observação é particularmente útil porque os íons podem revelar informações sobre moléculas que são mais difíceis de detectar diretamente. No caso do 3I/ATLAS, a análise espacial permitiu observar pequenas mudanças na composição à medida que o material se afastava do núcleo do cometa.

O resultado mostra como instrumentos capazes de combinar espectroscopia e informação espacial podem transformar a observação de objetos interestelares.

Veja mais:

Uma rara janela para outro sistema planetário

O 3I/ATLAS foi descoberto em julho de 2025 e passou pelo Sistema Solar antes de seguir novamente em direção ao espaço interestelar. Como sua trajetória não está ligada gravitacionalmente ao Sol, ele representa uma oportunidade excepcional para estudar material formado ao redor de outra estrela.

O estudo de Lea Ferellec, publicado em de setembro de 2026 na revista Monthly Notices of the Royal Astronomical Society, indica que a composição rica em N₂ é compatível com uma formação em condições muito frias.

Ainda não é possível determinar exatamente qual estrela deu origem ao objeto. Mesmo assim, cada molécula identificada ajuda a reconstruir o ambiente onde esse visitante foi formado, transformando sua passagem pelo Sistema Solar em uma rara oportunidade de investigar como outros sistemas planetários podem ter começado.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes