Endometriose leva em média 7 anos para ser diagnosticada nas mulheres 

A endometriose pode permanecer sem diagnóstico durante muitos anos. (Imagem: Fala Ciência)

A endometriose pode começar a causar sintomas muito antes de receber um nome. Para muitas mulheres, anos se passam entre as primeiras dores e a confirmação da doença. O problema não está apenas na demora para procurar atendimento. A própria variedade dos sintomas e a dificuldade de reconhecer a doença podem prolongar esse caminho.

A estimativa de cerca de 7 anos até o diagnóstico aparece com frequência na literatura científica. No entanto, estudos mais recentes mostram que esse intervalo pode ser ainda maior em algumas populações.

Quando a dor menstrual deixa de ser considerada normal?

Endometriose vs. Cólicas Normais. (Imagem: Fala Ciência)

Um dos principais obstáculos é a ideia de que cólicas fortes fazem parte naturalmente da menstruação. Embora algum desconforto menstrual seja comum, dores intensas, recorrentes ou incapacitantes merecem avaliação.

A endometriose ocorre quando um tecido semelhante ao endométrio se desenvolve fora do local habitual. Essas áreas podem provocar inflamação e dor, especialmente em determinados períodos do ciclo menstrual.

Além disso, os sintomas não são iguais para todas as mulheres. Podem aparecer:

  • cólicas menstruais intensas
  • dor pélvica persistente
  • dor durante ou após relações sexuais
  • alterações intestinais ou urinárias
  • dificuldade para engravidar
  • cansaço associado à dor crônica

Essa diversidade pode fazer com que o problema seja inicialmente interpretado como outras condições.

O caminho até o diagnóstico pode envolver várias etapas

Outro fator importante é que a mulher pode passar por diferentes profissionais de saúde antes de chegar ao diagnóstico correto. Dependendo dos sintomas, podem ser solicitadas avaliações para problemas ginecológicos, intestinais ou urinários.

Além disso, exames de imagem nem sempre identificam todos os focos da doença. A localização e o tamanho das lesões podem influenciar a capacidade de visualização.

Por isso, o diagnóstico depende da combinação entre histórico dos sintomas, exame clínico e métodos de imagem, considerando também a experiência do profissional na investigação da endometriose.

Sete anos podem separar os primeiros sintomas da confirmação da doença

Uma pesquisa publicada em julho de 2026 na revista Reproductive BioMedicine Online, liderada por Laura de Kok, analisou mulheres atendidas em hospitais dos Países Baixos. Entre as participantes que responderam ao questionário, o tempo mediano entre o início dos sintomas e o diagnóstico confirmado foi de 7 anos.

O estudo também identificou diferenças dentro desse período. A mediana do atraso atribuído à própria paciente foi de 1 ano, enquanto o período relacionado ao atendimento na atenção primária também apresentou mediana de 1 ano. Os maiores atrasos apareceram principalmente entre mulheres que procuraram atendimento por cólicas menstruais ou alterações no sangramento.

O resultado ajuda a entender por que o diagnóstico pode demorar tanto. Não existe necessariamente um único momento responsável pela espera. O caminho até identificar a doença pode envolver vários obstáculos sucessivos.

Reconhecer os sinais pode encurtar esse caminho

A dor não precisa ser suportada como se fosse obrigatoriamente parte da menstruação. Quando os sintomas são frequentes, intensos ou interferem na rotina, vale procurar avaliação médica.

Também é útil registrar quando a dor aparece, sua intensidade, relação com o ciclo menstrual e outros sintomas associados. Essas informações podem ajudar o profissional a perceber padrões que seriam difíceis de identificar durante uma consulta rápida.

A endometriose continua sendo uma condição que exige atenção justamente porque pode permanecer escondida por muito tempo. Quanto mais cedo os sintomas persistentes forem investigados, maior a possibilidade de interromper uma jornada que, para muitas mulheres, ainda dura anos.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn