Uma nova geração de medicamentos que imitam a ação do GLP-1 está tentando resolver um dos principais obstáculos das terapias atuais: a necessidade de aplicação por injeção. O aleniglipron, ainda em desenvolvimento, chama atenção por ser uma molécula pequena administrada por via oral e ter produzido uma redução de peso próxima de 12% em 36 semanas no grupo que recebeu a maior dose estudada.
O resultado veio de um ensaio clínico de fase 2b publicado na revista Nature Medicine. Apesar dos números promissores, o medicamento ainda está em desenvolvimento e os resultados de uma fase intermediária não significam que ele já esteja disponível como tratamento aprovado.
Uma nova estratégia para ativar o GLP-1
O GLP-1 é um hormônio produzido naturalmente pelo organismo que participa do controle da glicose e do apetite. Medicamentos que ativam seu receptor podem aumentar a sensação de saciedade, reduzir o apetite e retardar o esvaziamento do estômago.
A diferença do aleniglipron está em sua estrutura. Enquanto alguns medicamentos conhecidos dessa classe são baseados em peptídeos, o candidato estudado é uma molécula pequena, desenvolvida para ser administrada por via oral.
Essa característica pode facilitar a produção em larga escala e eliminar a necessidade de injeções. No entanto, conveniência não significa automaticamente maior eficácia ou segurança. Essas características precisam ser avaliadas em estudos maiores e por períodos mais longos.
230 adultos participaram do ensaio clínico
O estudo ACCESS fase 2b incluiu 230 adultos com sobrepeso ou obesidade, acompanhados em 38 centros médicos dos Estados Unidos. Os participantes foram distribuídos aleatoriamente entre diferentes grupos de tratamento ou placebo, em um desenho duplo cego.
Após 36 semanas, a redução média do peso corporal aumentou conforme a dose estudada. Os resultados observados no estudo foram aproximadamente:
- 9,0% de redução no grupo de menor dose
- 10,7% de redução no grupo intermediário
- 12% de redução no grupo de maior dose
- 0,5% de redução no grupo placebo
Na análise estatística principal, considerando a diferença em relação ao placebo, a redução ajustada chegou a 11,3% na maior dose. A própria Nature Medicine publicou posteriormente uma correção de um valor apresentado em uma das figuras do estudo.
Os efeitos gastrointestinais apareceram durante o tratamento
Assim como ocorre com outros medicamentos que atuam sobre o receptor de GLP-1, os eventos adversos observados foram principalmente gastrointestinais. Náuseas, vômitos e outros sintomas digestivos foram relatados, em geral com intensidade leve a moderada, e a frequência diminuiu ao longo do acompanhamento.
No conjunto dos grupos que receberam aleniglipron, 10,4% dos participantes interromperam o tratamento por motivos relacionados ao medicamento. Os pesquisadores não identificaram casos de lesão hepática induzida pelo fármaco durante o período analisado.
Esses dados são relevantes, mas não permitem concluir como será o desempenho do medicamento em uma população muito maior ou durante vários anos.
A próxima etapa será ainda mais importante
O estudo publicado em 5 de junho de 2026 na Nature Medicine, liderado por Julio Rosenstock, mostrou que o aleniglipron conseguiu produzir uma redução de peso clinicamente relevante durante 36 semanas.
Entretanto, trata-se de um medicamento experimental. Os resultados de fase 2b servem principalmente para avaliar eficácia inicial, segurança e tolerabilidade antes de estudos maiores.
A próxima fase deverá esclarecer questões fundamentais, como a manutenção da perda de peso, os efeitos adversos com uso prolongado e o desempenho do medicamento em diferentes perfis de pacientes. Portanto, o resultado é promissor para a pesquisa em obesidade, mas ainda representa uma etapa do desenvolvimento científico.
