Adesivo de lactase: a novidade para quem passa mal depois de consumir leite 

Adesivo de lactase surge como alternativa para quem evita laticínios. (Imagem: Fala Ciência)

O adesivo de lactase começou a chamar atenção como uma alternativa aos comprimidos e cápsulas usados por pessoas que apresentam dificuldade para digerir a lactose. A proposta parece simples: colocar um adesivo na pele e contar com a enzima durante o período em que alimentos com leite são consumidos.

Entretanto, existe uma questão fundamental por trás dessa tecnologia. A lactase precisa atuar sobre a lactose dentro do sistema digestivo, principalmente no intestino delgado. Por isso, a ideia de administrar a enzima pela pele levanta dúvidas importantes sobre como ela chegaria ao local onde deveria exercer sua função.

A enzima que transforma a lactose antes que ela cause desconforto

Como a lactase e suplementos agem na digestão de laticínios. (Imagem: Fala Ciência)

A lactose é o açúcar naturalmente presente no leite e em diversos derivados. Para ser absorvida adequadamente, ela precisa ser quebrada em moléculas menores pela enzima lactase, presente na superfície das células do intestino delgado.

Quando existe produção insuficiente dessa enzima, parte da lactose permanece sem ser digerida e chega a regiões mais distais do intestino. Ali, a fermentação bacteriana pode contribuir para sintomas como:

  • gases
  • distensão abdominal
  • cólicas
  • diarreia
  • sensação de desconforto após consumir laticínios

É justamente nesse ponto que os suplementos orais de lactase fazem sentido fisiológico: eles levam a enzima diretamente ao trato gastrointestinal.

O adesivo funciona da mesma maneira que um comprimido?

Aqui está a principal diferença. Um adesivo transdérmico tenta liberar uma substância através da pele para alcançar o organismo. Porém, a lactase é uma enzima proteica, e moléculas desse tipo não atravessam a barreira cutânea com facilidade.

Além disso, mesmo que uma proteína administrada pela pele consiga alcançar a circulação, isso não significa automaticamente que ela chegará ao interior do intestino em uma forma capaz de digerir a lactose presente na refeição.

Portanto, é importante não assumir que um adesivo contendo lactase funciona simplesmente como uma versão colada na pele de um comprimido de lactase.

Ciência ajuda a entender a importância da lactase

Uma revisão publicada em 25 de junho de 2026 na revista Journal of the American Nutrition Association, tendo Mayank Goyal como primeiro autor, analisou a deficiência de lactase, a intolerância à lactose e as estratégias terapêuticas disponíveis. O trabalho descreve a deficiência da enzima como o mecanismo central da má digestão da lactose e discute abordagens destinadas a melhorar sua digestão.

O estudo, entretanto, não comprova que adesivos transdérmicos de lactase sejam eficazes. Essa distinção é importante porque evidências sobre lactase administrada por via oral não podem ser automaticamente transferidas para uma formulação aplicada sobre a pele.

Assim, a novidade deve ser encarada com cautela enquanto estudos clínicos independentes específicos avaliam sua eficácia, quantidade de enzima efetivamente disponibilizada no intestino e capacidade de reduzir sintomas.

Intolerância à lactose não significa necessariamente abandonar derivados do leite

A intensidade dos sintomas varia bastante entre as pessoas. Além disso, quantidade de lactose consumida, composição da refeição e características individuais podem modificar a resposta digestiva.

Por isso, quem apresenta desconforto frequente após consumir leite ou derivados deve primeiro confirmar se realmente existe intolerância à lactose. Sintomas semelhantes podem aparecer em outras condições gastrointestinais.

No caso dos adesivos, é importante ter cautela. Uma novidade não significa que ela já tenha eficácia comprovada. A ideia pode parecer interessante, mas ainda é preciso saber se o adesivo realmente consegue levar a lactase até o intestino e ajudar na digestão da lactose.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn