“Drácula vegano”: peixe ancestral surpreende cientistas ao aparecer em águas tropicais 

Lampreia-de-riacho australiana, espécie rara de Queensland. (Imagem: David Moffatt)

Uma pequena criatura com fileiras circulares de dentes afiados, corpo parecido com o de uma enguia e aparência pré-histórica está chamando a atenção de cientistas na Austrália.

Conhecida como “Drácula vegano”, a lampreia-de-riacho australiana (Mordacia praecox) ganhou esse apelido justamente por causa de sua aparência. Apesar da boca assustadora, porém, ela não é parasitária e não suga o sangue de outros animais.

Uma nova etapa de investigação pretende descobrir até onde esse animal se espalha pelos rios de Queensland. E existe a possibilidade de que os pesquisadores estejam diante de algo ainda mais surpreendente: duas outras lampreias encontradas no estado podem representar espécies novas para a ciência.

Uma descoberta que pegou os pesquisadores de surpresa

A história começou em 2022, quando o ecologista aquático Luke Carpenter-Bundhoo, da Griffith University, trabalhava em K’gari, na Austrália, investigando os efeitos dos incêndios do chamado Black Summer sobre os ecossistemas.

Durante uma coleta em um dos riachos da ilha, ele encontrou uma criatura semelhante a uma enguia, com sete aberturas branquiais.

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O achado chamou atenção porque a espécie conhecida como lampreia-de-riacho australiana havia sido registrada anteriormente cerca de 1.400 quilômetros mais ao sul, em riachos próximos à fronteira entre Nova Gales do Sul e Victoria.

Posteriormente, os pesquisadores também encontraram registros da espécie em regiões ainda mais ao norte, incluindo a área de Rockhampton.

Isso é particularmente interessante porque as lampreias eram consideradas animais associados a ambientes mais frios. Os novos registros mostram que a espécie consegue ocupar águas tropicais e subtropicais.

Por que ela é chamada de “Drácula vegano”?

Lampreias australianas são mantidas em pequeno tanque de água. (Imagem: Universidade Griffith)

A aparência explica apenas metade do apelido.

A lampreia possui uma boca circular cercada por dentes, uma característica que faz o animal parecer um pequeno predador de filmes de terror.

Só que, nesse caso, a comparação com um vampiro termina aí.

A Mordacia praecox é uma espécie não parasitária. Durante a fase larval, os animais passam aproximadamente três a quatro anos no fundo dos riachos, enterrados no sedimento e filtrando pequenas algas presentes na água.

Depois da metamorfose, chegam à fase adulta. Nesse período, deixam de se alimentar e concentram sua energia na reprodução. O ciclo termina poucos meses depois, segundo a Griffith University.

A espécie também é pequena. Os adultos podem chegar a aproximadamente 15 centímetros, tornando ainda mais curioso o contraste entre o tamanho reduzido e a aparência ameaçadora.

Duas possíveis espécies podem estar escondidas nos laboratórios

A investigação pode revelar algo ainda maior.

Os pesquisadores possuem exemplares de duas outras lampreias ligeiramente menores que a Mordacia praecox. Por enquanto, elas ainda não receberam nomes científicos e podem representar espécies que a ciência ainda não descreveu oficialmente.

Se essa hipótese for confirmada, a Austrália passaria de três para cinco espécies de lampreias conhecidas, enquanto Queensland poderia abrigar três delas.

Os cientistas acreditam que essas criaturas podem ter passado despercebidas durante muito tempo porque permanecem escondidas sob a areia dos riachos. Esse comportamento dificulta tanto a localização dos animais quanto o conhecimento sobre suas populações.

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O desafio agora é descobrir onde elas vivem

Para encontrar novas populações, a equipe pretende voltar a K’gari e explorar outros ambientes aquáticos de Queensland.

A estratégia inclui procurar os animais em locais remotos e de difícil acesso, onde podem existir populações ainda desconhecidas.

Essa etapa é importante porque conhecer a distribuição de uma espécie ameaçada é fundamental para definir medidas de proteção. No caso da lampreia-de-riacho australiana, os pesquisadores levantam até a possibilidade de Queensland ser atualmente um dos últimos grandes refúgios da espécie.

Por enquanto, o “Drácula vegano” continua sendo um dos habitantes mais misteriosos dos riachos australianos. E as próximas expedições podem revelar que ele não está sozinho.

A informação sobre um novo financiamento e a investigação foi divulgada pela Griffith University em 21 de agosto de 2026, no comunicado “Funding fuels further study into Queensland’s elusive ‘vegan Dracula’ fish”.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes