A melatonina costuma ser vista como uma opção simples para quem enfrenta dificuldades para dormir. Afinal, trata-se de um hormônio produzido naturalmente pelo organismo e diretamente envolvido na regulação do ciclo entre sono e vigília. No entanto, uma grande análise recente levantou uma questão que merece atenção: o uso prolongado do suplemento pode estar relacionado a um risco maior de insuficiência cardíaca?
Os dados apresentados em 2025 encontraram uma associação relevante, mas é fundamental interpretar o resultado com cautela. O estudo não demonstrou que a melatonina causa insuficiência cardíaca. Ele identificou uma relação estatística entre o uso prolongado documentado do suplemento e determinados desfechos cardiovasculares.
Uma diferença importante apareceu nos prontuários
A pesquisa analisou registros de 130.828 adultos diagnosticados com insônia, com idade média de 55,7 anos. Metade aproximadamente fazia uso documentado de melatonina durante pelo menos um ano, enquanto o grupo de comparação apresentava insônia, mas não tinha registro de utilização do suplemento.
Os participantes foram pareados levando em consideração dezenas de características, incluindo idade, sexo, doenças anteriores, pressão arterial, índice de massa corporal e medicamentos.
Durante cinco anos de acompanhamento, a insuficiência cardíaca foi registrada em 4,6% dos usuários de melatonina, contra 2,7% entre os não usuários. Isso correspondeu a uma associação com risco aproximadamente 90% maior.
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Entrar no Canal do WhatsAppTambém apareceram diferenças em outros desfechos:
- A hospitalização relacionada à insuficiência cardíaca ocorreu em 19% contra 6,6%.
- A mortalidade por qualquer causa foi de 7,8% contra 4,3%.
- Uma análise adicional envolvendo pessoas com pelo menos duas prescrições de melatonina separadas por 90 dias encontrou associação semelhante.
O sono ruim também pode estar por trás do resultado
Aqui está uma das partes mais importantes da interpretação. Pessoas com insônia crônica já apresentam características que podem influenciar a saúde cardiovascular, independentemente da utilização de melatonina.
O próprio desenho da pesquisa não consegue determinar se o suplemento provocou os problemas observados ou se outros fatores contribuíram para a associação. Gravidade da insônia, ansiedade, depressão, outros medicamentos e condições de saúde podem influenciar simultaneamente a escolha pela melatonina e o risco cardiovascular.
Além disso, a pesquisa utilizou registros médicos. Portanto, alguém que comprasse melatonina sem receita e não tivesse esse consumo registrado poderia aparecer incorretamente como não usuário.
Melatonina natural não significa suplemento inofensivo
O organismo produz melatonina principalmente quando a noite chega. O hormônio participa da sincronização do relógio biológico, ajudando o corpo a reconhecer o período adequado para dormir.
Entretanto, o fato de uma substância existir naturalmente no organismo não significa que seu uso em forma de suplemento seja automaticamente livre de riscos. Dose, frequência, duração e características individuais podem modificar seus efeitos.
Por isso, o resultado não significa que pessoas que utilizam melatonina ocasionalmente devam entrar em pânico. A principal questão levantada pela pesquisa está relacionada ao uso prolongado em pessoas com insônia crônica.
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A pesquisa ainda precisa passar por uma etapa essencial
O trabalho foi apresentado por Ekenedilichukwu Nnadi e colaboradores nas Scientific Sessions 2025 da American Heart Association. Trata-se de uma análise observacional preliminar, e não de um ensaio clínico capaz de estabelecer causa e efeito.
Essa diferença é fundamental. Uma associação de 90% não significa que nove em cada dez usuários desenvolverão insuficiência cardíaca. Na realidade, os números absolutos foram 4,6% e 2,7% nos dois grupos.
Portanto, os resultados levantam uma hipótese importante sobre a segurança cardiovascular do uso prolongado de melatonina, mas não permitem concluir que o suplemento seja responsável pelos problemas cardíacos observados.
Até que estudos mais robustos esclareçam essa relação, o uso contínuo para tratar insônia deve ser discutido com um profissional de saúde, principalmente quando existem doenças cardiovasculares ou outros fatores de risco envolvidos.
