Compras online e conversas sem nexo: os perigos do medicamento que desliga o filtro do cérebro

Zolpidem pode causar sonambulismo medicamentoso. (Foto: Fala Ciência via Gemini)
Zolpidem pode causar sonambulismo medicamentoso. (Foto: Fala Ciência via Gemini)

Alguns medicamentos usados para tratar insônia podem criar um estado neurológico muito particular: a pessoa dorme, mas parte do cérebro continua executando ações automáticas. O resultado pode ser confuso e até alarmante, envolvendo desde conversas sem sentido até compras realizadas durante a madrugada, sem qualquer lembrança posterior.

Esse fenômeno está associado ao uso do zolpidem, um hipnótico amplamente prescrito para distúrbios do sono.

O alvo do zolpidem no sistema nervoso

O zolpidem age principalmente nos receptores GABA-A, com maior seletividade para subunidades relacionadas ao efeito hipnótico. Esses receptores são responsáveis por reduzir a excitabilidade neuronal, favorecendo o início do sono.

No entanto, sua ação não é homogênea no cérebro. Em vez de “desligar tudo”, ocorre uma modulação seletiva de redes neurais:

  • áreas relacionadas ao sono são fortemente inibidas
  • regiões motoras podem permanecer parcialmente ativas
  • circuitos de memória e julgamento sofrem redução funcional

Essa combinação cria um estado intermediário entre sono e vigília.

O fenômeno dos comportamentos complexos durante o sono

O aspecto mais intrigante do zolpidem é sua associação com os chamados comportamentos complexos do sono. Nesse estado, a pessoa pode realizar atividades coordenadas sem consciência plena e sem formação de memória.

De forma prática, isso pode incluir:

  • envio de mensagens sem lembrança posterior
  • preparo de alimentos durante a noite
  • compras online realizadas em estado automático
  • deslocamentos curtos sem percepção clara

Esses eventos são caracterizados por uma dissociação entre ação e memória.

O que a ciência já demonstrou

Uma revisão sistemática publicada no Indian Journal of Psychological Medicine, conduzida por Niti Mittal, Rakesh Mittal e M. C. Gupta (2021), analisou evidências sobre zolpidem e comportamentos complexos do sono.

O estudo reuniu dados de múltiplos relatos clínicos e observacionais envolvendo usuários do medicamento e identificou um padrão consistente:

  • episódios de sonambulismo e automação comportamental
  • ocorrência de alimentação e atividades motoras durante o sono
  • presença de amnésia anterógrada após o episódio

No total, os dados analisados incluíram centenas de casos clínicos relatados, com associação provável ao zolpidem na maioria das ocorrências avaliadas.

O que acontece dentro do cérebro

Do ponto de vista neurofarmacológico, o efeito envolve uma separação funcional entre sistemas cerebrais:

  • Córtex pré-frontal: reduz atividade ligada a julgamento e controle
  • Hipocampo: comprometido na formação de novas memórias
  • Circuitos motores subcorticais: podem permanecer parcialmente ativos

Essa dissociação explica por que ações podem ocorrer sem registro consciente.

Fatores que aumentam o risco desses episódios

A literatura indica que esses comportamentos são mais prováveis em situações como:

  • doses elevadas do medicamento
  • uso combinado com outras substâncias sedativas
  • privação de sono
  • sensibilidade individual ao sistema GABAérgico

Mesmo assim, os eventos são considerados incomuns, mas clinicamente relevantes.

O zolpidem é eficaz no tratamento da insônia, mas sua ação sobre o sistema GABA-A pode, em alguns casos, produzir um estado de automatismo comportamental com amnésia.

A revisão de Niti Mittal et al. (2021), publicada no Indian Journal of Psychological Medicine, evidencia que o cérebro pode operar em um modo fragmentado, no qual ações acontecem sem que a memória seja consolidada.

Esse fenômeno mostra como o sono medicado pode revelar limites importantes entre consciência, comportamento e memória.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn