A impressionante organização observada em colônias de formigas, abelhas e algumas vespas desperta o interesse da ciência há muito tempo. Nesses insetos, milhares de indivíduos atuam de maneira coordenada, compartilhando funções como o cuidado com a prole, a defesa da colônia e a busca por alimento. Esse elevado nível de cooperação faz da eussocialidade um dos exemplos mais extraordinários de organização biológica conhecidos.
Durante mais de seis décadas, uma hipótese dominou a biologia evolutiva ao sugerir que esse fenômeno seria consequência direta de um sistema genético conhecido como haplodiploidia. No entanto, uma nova pesquisa indica que essa explicação pode estar longe de contar toda a história.
Publicado na revista Current Biology, o estudo de Sachin Suresh e colaboradores, em 2026, analisou uma das maiores bases de dados já reunidas sobre insetos e revelou que a origem da eussocialidade depende muito mais da história evolutiva de determinados grupos do que apenas de sua genética.
Muito além dos cromossomos
A eussocialidade representa o mais elevado nível de organização social observado entre os animais. Nesse sistema, os indivíduos vivem em colônias permanentes, compartilham os cuidados com os descendentes e apresentam uma clara divisão reprodutiva. Enquanto poucas fêmeas produzem descendentes, a maior parte da população atua como operária, protegendo a colônia, buscando alimento e cuidando das larvas.
Durante décadas, acreditou-se que esse comportamento era favorecido pela haplodiploidia, um mecanismo genético presente em muitos himenópteros. Nesse sistema:
- Fêmeas surgem de ovos fertilizados e possuem dois conjuntos de cromossomos.
- Machos nascem de ovos não fertilizados e possuem apenas um conjunto cromossômico.
Como consequência, irmãs podem compartilhar uma parcela muito elevada de seus genes, tornando vantajoso, do ponto de vista evolutivo, investir na criação de parentes em vez de produzir descendentes próprios.
Essa hipótese influenciou gerações de pesquisadores e passou a fazer parte de livros didáticos de evolução.
Um teste em escala sem precedentes
Para verificar se essa ideia realmente se aplica à diversidade dos insetos, os pesquisadores reuniram informações sobre aproximadamente 69 mil espécies e compararam características genéticas e comportamentais utilizando grandes árvores filogenéticas.
Inicialmente, os resultados pareciam confirmar a teoria clássica. A eussocialidade realmente aparecia com maior frequência entre espécies haplodiploides.
Entretanto, uma análise mais detalhada revelou um aspecto surpreendente. Quase toda essa associação era explicada por apenas um ramo específico da evolução dos insetos: os himenópteros aculeados, grupo que reúne formigas, abelhas e vespas com ferrão.
Quando esse fator evolutivo foi considerado, a relação entre haplodiploidia e eussocialidade praticamente desapareceu.
A história evolutiva faz mais diferença
Os resultados sugerem que características próprias dessas linhagens tiveram papel muito mais importante na evolução das sociedades complexas.
Entre os fatores que podem ter favorecido esse processo estão:
- Construção de ninhos especializados.
- Presença de ferrão para defesa coletiva.
- Estratégias avançadas de cuidado parental.
- Características específicas do ciclo de vida.
- Pressões ambientais ao longo da evolução.
Isso significa que o sistema genético pode ter contribuído para esse processo, mas dificilmente atuou como o único motor da evolução das colônias cooperativas.
Uma nova perspectiva para compreender a evolução
O trabalho representa um dos testes comparativos mais abrangentes já realizados sobre essa hipótese clássica da biologia evolutiva.
Além de questionar uma ideia amplamente difundida, o estudo demonstra a importância de utilizar grandes conjuntos de dados para reavaliar conceitos estabelecidos há décadas. Em vez de uma regra universal baseada apenas na genética, a pesquisa indica que a evolução da eussocialidade resulta da interação entre história evolutiva, ecologia, comportamento e características biológicas específicas de cada linhagem.
