Cientistas descobrem que plantas “gritam” quando estão com sede

As plantas parecem silenciosas, mas podem emitir “gritos” ultrassônicos quando estão com sede. (Imagem: Fala Ciência via Gemini)

Imagine caminhar por um jardim aparentemente silencioso e descobrir que, na verdade, ele está repleto de sons. Não sons que nossos ouvidos conseguem captar, mas sinais acústicos emitidos pelas próprias plantas. Nos últimos anos, a ciência começou a desvendar um fenômeno fascinante: plantas submetidas à falta de água ou a danos físicos podem produzir sons ultrassônicos que funcionam como indicadores de estresse.

Essa descoberta abriu uma nova área de pesquisa conhecida como bioacústica vegetal, um campo que investiga como as plantas produzem, percebem e respondem a vibrações sonoras. Embora a ideia de plantas “gritando” seja uma metáfora, os estudos mostram que elas realmente emitem sinais detectáveis por equipamentos especializados.

Um jardim mais barulhento do que parece

A atenção mundial para esse tema cresceu após pesquisas demonstrarem que plantas de tomate e tabaco emitem sons quando passam por situações de estresse, especialmente durante períodos de seca ou após cortes em seus tecidos. Esses sons estão na faixa do ultrassom, acima de 20 kHz, portanto fora da capacidade auditiva humana.

Os registros indicam que plantas saudáveis produzem poucos sons, enquanto exemplares submetidos à desidratação podem emitir dezenas de sinais por hora. Esses ruídos lembram pequenos estalos ou cliques captados por microfones altamente sensíveis. O fenômeno foi amplamente discutido em um comentário científico publicado na revista Cell, em março de 2023, por Daniel Robert, que destacou o potencial revolucionário da bioacústica vegetal.

O que causa esses “gritos” invisíveis?

A explicação mais aceita está relacionada ao sistema vascular das plantas, especialmente ao xilema, tecido responsável pelo transporte de água.

Quando uma planta sofre com a falta de água, a tensão dentro dos vasos aumenta. Nesse processo podem surgir pequenas bolhas de ar, fenômeno conhecido como cavitação. A formação e o colapso dessas bolhas geram vibrações que se propagam como ondas ultrassônicas.

Em outras palavras, os sons não são produzidos de forma consciente. Eles são consequência de alterações físicas associadas ao estresse hídrico. Ainda assim, carregam informações valiosas sobre o estado fisiológico da planta.

As descobertas mais recentes da bioacústica vegetal

O interesse científico pelo tema continua crescendo. Em março de 2025, uma revisão publicada na revista Horticulturae, liderada por Anita Király, reuniu os avanços mais recentes sobre ultrassons em plantas. O trabalho destacou evidências de que os sinais acústicos podem se tornar ferramentas importantes para o monitoramento agrícola e para a compreensão da comunicação vegetal.

Além disso, um estudo publicado em julho de 2025 na revista Ecological Indicators, com autoria principal de J. Klaminder, demonstrou que emissões acústicas ultrassônicas podem ser usadas para identificar sinais de estresse hídrico em árvores em ambientes externos. Os pesquisadores observaram que os sons aumentam conforme ocorrem falhas no transporte de água dentro da planta.

O que isso pode mudar na agricultura?

As aplicações práticas são enormes. Sensores capazes de detectar esses sinais poderiam permitir:

  • Identificação precoce da falta de água
  • Monitoramento da saúde das lavouras em tempo real
  • Redução do desperdício de irrigação
  • Maior eficiência na produção agrícola

Com isso, agricultores poderiam agir antes que os sintomas visíveis aparecessem, reduzindo perdas e economizando recursos.

Uma nova forma de enxergar o mundo vegetal

Por muito tempo, as plantas foram vistas como organismos passivos. Hoje sabemos que elas detectam luz, temperatura, substâncias químicas e até vibrações mecânicas. Agora, a bioacústica vegetal revela mais uma camada desse universo complexo.

Embora não possamos ouvir esses sons naturalmente, os equipamentos científicos mostram que as plantas vivem em um ambiente muito mais dinâmico do que imaginávamos. O silêncio de uma floresta ou de um jardim talvez seja apenas uma limitação dos nossos sentidos. Para a ciência, esses ambientes estão longe de ser silenciosos.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes