Árvores no quintal realmente limpam o ar? Novo estudo traz uma resposta surpreendente 

Estudo mostra que jardins ainda não têm eficácia comprovada na redução da poluição do ar doméstico. (Imagem: Fala Ciência)

Árvores, arbustos e jardins costumam ser associados a um ambiente mais saudável. Afinal, é comum imaginar que quanto mais vegetação existe ao redor das casas, melhor será a qualidade do ar. No entanto, uma nova revisão científica mostra que essa relação pode ser mais complexa do que parece. Apesar dos inúmeros benefícios dos espaços verdes, ainda não existem evidências suficientes para afirmar que plantar árvores em jardins residenciais reduz diretamente a poluição que respiramos.

A conclusão foi apresentada em um estudo publicado na revista Nature-Based Solutions, por Karina Corada e colaboradores, em 2026. Os pesquisadores analisaram dezenas de milhares de publicações científicas para investigar o papel dos jardins domésticos na redução da poluição atmosférica.

Uma enorme lacuna no conhecimento científico

Os cientistas revisaram mais de 34 mil estudos, mas apenas 43 atenderam aos critérios relacionados a jardins residenciais e poluição do ar. Mesmo entre esses trabalhos, nenhum mediu diretamente se os jardins diminuem a concentração de poluentes no ambiente ou melhoram o ar respirado dentro das residências.

Essa ausência de dados chama atenção porque os jardins domésticos ocupam grandes áreas nas cidades. Em muitos centros urbanos, eles representam uma parcela significativa da infraestrutura verde, podendo influenciar o microclima, a biodiversidade e o conforto térmico. Entretanto, quando o assunto é qualidade do ar, ainda faltam experimentos realizados em condições reais.

As plantas capturam poluentes, mas isso não conta toda a história

Diversos estudos já demonstraram que árvores, sebes e arbustos conseguem capturar partículas presentes na atmosfera e absorver alguns poluentes gasosos por meio das folhas. Porém, isso não significa automaticamente que um jardim sempre resulte em ar mais limpo. A circulação do ar em áreas residenciais depende de muitos fatores, como:

  • Posição das árvores e arbustos;
  • Altura e densidade da vegetação;
  • Presença de muros, cercas e construções;
  • Distância em relação às vias de tráfego;
  • Condições de vento e clima.

Em determinadas situações, uma vegetação muito densa pode até dificultar a ventilação, favorecendo o acúmulo temporário de poluentes em vez de sua dispersão.

Cultivar alimentos perto de ruas merece atenção

A revisão também destacou um tema importante para quem mantém hortas domésticas próximas de avenidas movimentadas ou áreas industriais.

Pesquisas anteriores indicam que algumas plantas comestíveis podem acumular metais pesados, especialmente quando cultivadas muito próximas ao tráfego intenso. Ervas aromáticas e hortaliças folhosas tendem a apresentar maior acúmulo desses contaminantes do que outras culturas.

Mesmo assim, os pesquisadores não sugerem abandonar o cultivo doméstico. Pelo contrário, defendem novos estudos para entender como barreiras vegetais, localização da horta e planejamento do jardim podem reduzir esse risco.

Nem toda árvore produz o mesmo efeito

Outro aspecto importante é que diferentes espécies vegetais apresentam características distintas. Folhas ásperas, cerosas ou cobertas por pequenos pelos costumam capturar mais partículas presentes no ar. Além disso, coníferas, que mantêm suas folhas durante todo o ano, podem reter maior quantidade de partículas finas.

Por outro lado, algumas espécies liberam compostos orgânicos voláteis, que podem participar da formação de poluentes secundários em determinadas condições atmosféricas. Outras produzem grandes quantidades de pólen, aumentando o desconforto para pessoas alérgicas.

Os resultados publicados na Nature-Based Solutions, por Karina Corada e colaboradores, em 2026, mostram que transformar jardins domésticos em aliados das estratégias de combate à poluição exige pesquisas mais específicas. Compreender como a vegetação interage com o fluxo de ar em residências permitirá elaborar recomendações baseadas em evidências, aproveitando todos os benefícios dos espaços verdes para a saúde pública, a biodiversidade e a qualidade ambiental das cidades.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes