Cientistas descobrem que o cérebro consegue raciocinar sem usar palavras

O cérebro consegue raciocinar sem depender diretamente da linguagem. (Imagem: Fala Ciência)

Quando tentamos resolver um problema complicado, é comum conversar mentalmente conosco. Organizamos possibilidades, repetimos informações e transformamos ideias em frases. Essa experiência cotidiana, porém, não significa que a linguagem seja indispensável para pensar.

Uma nova pesquisa conduzida por neurocientistas do MIT apresenta evidências de que o cérebro consegue realizar raciocínios lógicos sem depender da linguagem natural.

A descoberta é particularmente interessante porque os pesquisadores analisaram tanto pessoas saudáveis, por meio de exames de ressonância magnética, quanto indivíduos com afasia grave causada por lesões cerebrais. Mesmo com grandes dificuldades para compreender ou produzir linguagem, os participantes conseguiram resolver diferentes problemas de lógica.

O resultado sugere que pensamento lógico e linguagem são processos parcialmente separados no cérebro.

Quando as palavras deixam de ser necessárias?

Para investigar essa questão, os cientistas precisavam encontrar uma maneira de testar o raciocínio sem exigir que os participantes explicassem suas respostas verbalmente.

A solução foi utilizar tarefas baseadas principalmente em números, padrões e relações visuais.

Em uma delas, os participantes precisavam descobrir a regra escondida que transformava uma sequência numérica em outra. Depois de identificar o padrão, deveriam aplicá-lo a novos exemplos.

Outra atividade apresentava matrizes de formas geométricas. O desafio consistia em identificar qual figura completava corretamente o conjunto.

Esses testes permitiram avaliar uma capacidade bastante específica: encontrar relações e regras sem depender de frases para representar o problema.

Os resultados foram surpreendentes. Pessoas com graves comprometimentos da linguagem apresentaram desempenho comparável ao dos participantes sem essas lesões.

Além disso, conseguiam demonstrar que haviam compreendido as regras utilizando gestos e desenhos, sem precisar descrevê-las verbalmente.

Linguagem e lógica seguem caminhos diferentes

Os pesquisadores foram além dos testes comportamentais. Em adultos saudáveis, utilizaram ressonância magnética funcional, uma técnica que permite observar alterações na atividade cerebral durante determinadas tarefas.

Os participantes realizaram exercícios destinados a identificar as áreas cerebrais envolvidas na linguagem. Em seguida, resolveram diferentes problemas de raciocínio lógico.

A comparação revelou uma separação bastante clara.

As regiões responsáveis pelo processamento da linguagem não apresentaram aumento de atividade proporcional à dificuldade das tarefas de raciocínio lógico.

Em contrapartida, outros sistemas cerebrais foram recrutados durante determinados tipos de raciocínio.

Isso indica que o cérebro não precisa necessariamente transformar um problema lógico em uma sequência de palavras para solucioná-lo.

Dois tipos de raciocínio revelaram diferenças

Redes cerebrais distintas para raciocínio indutivo e dedutivo. (Imagem: Fala Ciência)

A pesquisa também distinguiu dois processos importantes.

O raciocínio indutivo acontece quando uma pessoa observa exemplos e tenta descobrir uma regra geral. Por exemplo, ao perceber que determinados padrões se repetem, o cérebro pode inferir qual princípio está por trás deles.

Já o raciocínio dedutivo parte de informações previamente estabelecidas para verificar se uma conclusão é necessariamente válida.

Os exames mostraram que esses dois processos não são exatamente iguais do ponto de vista cerebral.

Durante o raciocínio indutivo, houve participação da chamada rede de demanda múltipla, um conjunto distribuído de regiões envolvido em tarefas cognitivas complexas e direcionadas a objetivos.

O raciocínio dedutivo, por sua vez, envolveu outras áreas que não coincidiam nem com a rede linguística nem com essa rede de demanda múltipla.

Assim, a pesquisa sugere que nem sequer existe um único circuito cerebral responsável por todo o raciocínio lógico.

Afasia não significa perda da capacidade de raciocinar

Um dos aspectos mais importantes da descoberta está relacionado à afasia.

A afasia pode surgir depois de um AVC ou de outras lesões cerebrais e comprometer a capacidade de falar, compreender palavras, ler ou escrever. Dependendo das regiões afetadas, a dificuldade de comunicação pode ser bastante severa.

Entretanto, uma pessoa pode ter uma grande limitação para expressar uma ideia e ainda preservar outras capacidades cognitivas.

Os resultados do estudo ajudam a compreender melhor essa diferença. Não conseguir falar não significa necessariamente não conseguir pensar, compreender relações ou resolver problemas.

Essa distinção é importante tanto para familiares quanto para profissionais que convivem com pessoas que apresentam distúrbios de linguagem.

Uma dificuldade para encontrar palavras pode ser confundida com uma dificuldade intelectual. No entanto, os dois fenômenos podem ter origens cerebrais diferentes.

A pesquisa que separou linguagem e raciocínio no cérebro 

A pesquisa foi liderada por Hope Kean, em colaboração com pesquisadores do MIT, University College London e outras instituições, incluindo Evelina Fedorenko.

O artigo Evidence from Formal Logical Reasoning Reveals that the Language of Thought is not Natural Language foi publicado na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) em 2026, no volume 123, edição 28. 

Para chegar às conclusões, os pesquisadores combinaram testes comportamentais em indivíduos com afasia grave e exames de ressonância magnética funcional em adultos saudáveis. Os resultados indicaram que a rede cerebral da linguagem não foi recrutada durante os testes de raciocínio lógico avaliados.

A evidência não significa que a linguagem seja irrelevante para o pensamento humano. Ela é extremamente importante para comunicar, organizar e compartilhar ideias. A conclusão é mais específica: a linguagem natural não parece ser o mecanismo necessário para executar determinadas formas de inferência lógica.

A descoberta também interessa à inteligência artificial

Existe ainda uma consequência curiosa dessa pesquisa.

Grandes modelos de linguagem são treinados principalmente com grandes quantidades de texto e produzem respostas em linguagem natural. O cérebro humano, entretanto, parece utilizar sistemas distintos para linguagem e raciocínio lógico.

Essa diferença pode ajudar pesquisadores a investigar até que ponto o raciocínio realizado por sistemas artificiais se aproxima do funcionamento cognitivo humano.

O próprio estudo aponta que uma questão importante permanece em aberto: qual é exatamente o formato das representações utilizadas pelo cérebro quando ele raciocina sem recorrer à linguagem?

Ainda não existe uma resposta definitiva.

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Nem todo pensamento precisa ser transformado em linguagem 

A descoberta muda uma ideia bastante intuitiva sobre o funcionamento da mente. Embora muitas vezes experimentemos o pensamento como uma espécie de conversa interna, nem todo pensamento precisa assumir a forma de palavras.

Reconhecer padrões, comparar relações, avaliar possibilidades e chegar a determinadas conclusões pode envolver representações cerebrais que não dependem diretamente da linguagem.

Isso também ajuda a explicar por que alguém pode apresentar grande dificuldade para se comunicar e, ao mesmo tempo, preservar capacidades complexas de raciocínio.

A linguagem continua sendo uma das ferramentas mais sofisticadas do cérebro humano. Mas, aparentemente, ela não é a única maneira que nossa mente encontrou para organizar informações e chegar a conclusões.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn