Alguns cérebros escapam do Alzheimer mesmo com sinais da doença; entenda

Alguns cérebros resistem ao Alzheimer, revela estudo. (Foto: Fala Ciência via Gemini)

Por décadas, a ciência tenta responder uma pergunta intrigante: por que algumas pessoas desenvolvem as alterações típicas da doença de Alzheimer no cérebro, mas continuam com a memória e o raciocínio preservados?

Essa capacidade, conhecida como resiliência cognitiva, representa um dos maiores mistérios da neurologia. Enquanto alguns indivíduos apresentam perda progressiva das funções mentais, outros chegam a idades avançadas mantendo uma vida independente, mesmo com sinais biológicos associados ao Alzheimer identificados em seus cérebros.

Agora, um novo estudo sugere que uma parte dessa proteção pode estar relacionada ao comportamento de um grupo raro de células cerebrais chamadas neurônios imaturos.

O cérebro idoso pode guardar células com potencial de adaptação

Durante muito tempo, acreditava-se que o cérebro adulto humano tinha pouca capacidade de produzir novos neurônios. A chamada neurogênese adulta, processo de formação de novas células nervosas, continua sendo um tema debatido entre pesquisadores.

Para investigar esse fenômeno, cientistas do Instituto Holandês de Neurociências analisaram amostras de tecido cerebral de pessoas saudáveis, indivíduos com Alzheimer e idosos que apresentavam alterações da doença, mas nunca desenvolveram demência.

O foco foi o hipocampo, uma região fundamental para a formação e recuperação de memórias.

A equipe encontrou neurônios imaturos mesmo em pessoas com mais de 80 anos, indicando que essas células podem permanecer no cérebro durante o envelhecimento.

A diferença não estava na quantidade de células, mas no comportamento delas

Um dos resultados mais surpreendentes foi que os indivíduos considerados resistentes ao Alzheimer não tinham necessariamente mais neurônios imaturos do que aqueles que desenvolveram demência.

A principal diferença parecia estar na forma como essas células funcionavam.

Nos cérebros mais resistentes, os pesquisadores observaram padrões associados a:

  • Maior capacidade de sobrevivência celular.
  • Menores sinais relacionados à inflamação.
  • Menor ativação de processos ligados à morte celular.
  • Maior adaptação diante dos danos causados pela doença.

Isso sugere que esses neurônios podem atuar não apenas substituindo células perdidas, mas também ajudando a manter o ambiente cerebral mais equilibrado.

A descoberta que muda a forma de estudar o Alzheimer

O estudo foi publicado na revista Cell Stem Cell, em maio de 2026, liderado por Giorgia Tosoni e com participação de Evgenia Salta.

O trabalho, intitulado “Transcriptional profiles of immature neurons in the aging human hippocampus track Alzheimer’s disease pathology and cognitive resilience”, analisou os padrões de atividade genética dos neurônios imaturos no hipocampo humano envelhecido.

Os pesquisadores identificaram que essas células apresentavam diferentes assinaturas moleculares relacionadas à patologia do Alzheimer e à resiliência cognitiva, indicando que a maneira como elas respondem ao envelhecimento pode influenciar a preservação das funções cerebrais.

Os resultados não significam que esses neurônios sejam uma cura para o Alzheimer, mas oferecem uma nova perspectiva: talvez o futuro da pesquisa não esteja apenas em impedir os danos causados pela doença, mas também em entender como alguns cérebros conseguem resistir a eles.

A proteção contra o Alzheimer provavelmente envolve vários fatores

Embora os neurônios imaturos sejam uma peça importante desse quebra-cabeça, a resistência cognitiva não depende de um único mecanismo.

Outros fatores também podem contribuir para um cérebro mais protegido ao longo da vida, como:

  • Reserva cognitiva construída por aprendizado e estímulos mentais.
  • Atividade física regular.
  • Controle de fatores cardiovasculares.
  • Sono adequado.
  • Relacionamentos sociais e hábitos saudáveis.

A pesquisa sobre Alzheimer está passando por uma mudança de perspectiva. Em vez de olhar apenas para a destruição causada pela doença, os cientistas começam a investigar os mecanismos naturais que permitem que alguns cérebros continuem funcionando mesmo sob ameaça.

Compreender essa capacidade de adaptação pode abrir caminhos para novas estratégias terapêuticas no futuro e ajudar a responder uma das maiores perguntas da neurociência: por que alguns cérebros envelhecem de maneira diferente?

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn