Buraco negro oculto pode estar escondido nas famosas galáxias Antena

Nova imagem do Hubble revela colisão caótica e intensa formação estelar nas Galáxias Antena. (Imagem: ESA/Hubble)
Nova imagem do Hubble revela colisão caótica e intensa formação estelar nas Galáxias Antena. (Imagem: ESA/Hubble)

As famosas galáxias Antena, conhecidas por sua intensa formação de estrelas e pela espetacular colisão entre duas galáxias espirais, podem esconder algo ainda mais impressionante: um possível buraco negro supermassivo oculto em plena atividade.

Novas observações realizadas com o radiotelescópio ALMA identificaram sinais incomuns próximos ao núcleo da galáxia NGC 4039. O estudo, publicado no arXiv, sugere que uma região extremamente compacta e energética pode indicar a presença de um núcleo galáctico ativo profundamente enterrado sob gás e poeira. Os principais indícios encontrados pelos astrônomos incluem:

  • Variações rápidas no brilho da fonte observada;
  • Região emissora extremamente compacta;
  • Temperaturas superiores a um milhão de Kelvin;
  • Sinais incompatíveis com formação estelar comum;
  • Possível presença de um AGN obscurecido.

Um laboratório cósmico em colisão

Localizadas a cerca de 70 milhões de anos-luz da Terra, as galáxias Antena formam um dos sistemas de fusão galáctica mais estudados pelos astrônomos. O choque gravitacional entre as duas estruturas criou enormes caudas de gás, poeira e estrelas, lembrando antenas de insetos, origem do nome do sistema.

Além do visual impressionante, essa interação desencadeou uma explosão gigantesca de formação estelar, tornando a região um verdadeiro laboratório natural para investigar a evolução das galáxias.

No entanto, fusões galácticas também podem alimentar buracos negros supermassivos, canalizando grandes quantidades de gás para o centro das galáxias.

O objeto que chamou atenção dos pesquisadores

Imagens do ALMA e JWST destacam regiões específicas das Galáxias Antena em diferentes comprimentos de onda. (Imagem: arXiv (2026))
Imagens do ALMA e JWST destacam regiões específicas das Galáxias Antena em diferentes comprimentos de onda. (Imagem: arXiv (2026))

Durante 52 observações realizadas ao longo de aproximadamente dois meses, os cientistas monitoraram emissões em frequência de 100 GHz usando o ALMA. O objetivo era detectar mudanças rápidas no brilho das fontes observadas. Entre duas regiões compactas identificadas, chamadas S3 e S4, foi a segunda que mais intrigou os pesquisadores.

A fonte S4 apresentou alterações luminosas em apenas 13 dias. Esse detalhe é fundamental porque mudanças tão rápidas só podem ocorrer em objetos extremamente pequenos em escala astronômica.

Com base nos cálculos, a região emissora teria menos de 13 dias-luz de diâmetro, compacta demais para ser explicada por aglomerados estelares, nuvens de poeira ou remanescentes de supernova.

Um buraco negro escondido pela poeira?

Outro ponto decisivo foi a temperatura extremamente elevada detectada na emissão da fonte S4. Os valores observados ultrapassam um milhão de Kelvin, algo difícil de explicar apenas por processos associados à formação de estrelas. Os pesquisadores acreditam que essa energia pode estar relacionada a um núcleo galáctico ativo (AGN), alimentado por um buraco negro supermassivo.

Curiosamente, o objeto não foi detectado em raios X de alta energia, o que sugere um cenário ainda mais incomum: o possível AGN estaria completamente encoberto por enormes quantidades de gás e poeira, formando um chamado AGN Compton-espesso. Agora, futuras observações com o JWST e o telescópio espacial NuSTAR poderão confirmar se as galáxias Antena realmente escondem um gigantesco buraco negro ativo em um estágio inicial de fusão galáctica.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes