Açúcar é encontrado no espaço pela primeira vez e pode mudar a história da origem da vida

Astrônomos encontram açúcar no espaço interestelar, revelando pistas sobre a origem da vida na Terra. (Imagem: Pexels via Canva)

O Universo acaba de revelar mais uma peça do complexo quebra-cabeça da origem da vida. Pela primeira vez, astrônomos identificaram um açúcar verdadeiro no espaço interestelar, uma descoberta que amplia o conhecimento sobre a química presente entre as estrelas e fortalece a hipótese de que algumas moléculas essenciais à vida podem ter chegado à Terra primitiva transportadas por cometas e asteroides.

O estudo foi publicado na revista Nature Astronomy, em 2026, com autoria principal de Víctor M. Rivilla e colaboradores. A pesquisa descreve a detecção da eritrulose, um açúcar composto por quatro átomos de carbono, em uma gigantesca nuvem molecular localizada próxima ao centro da Via Láctea.

O primeiro açúcar verdadeiro identificado no espaço

Até hoje, cientistas já haviam encontrado diversas moléculas orgânicas complexas no espaço, incluindo compostos considerados precursores de substâncias biológicas. Entretanto, açúcares completos nunca haviam sido detectados diretamente no meio interestelar.

A eritrulose pertence à mesma família de moléculas que inclui compostos fundamentais para os organismos vivos. Açúcares desse grupo participam de processos essenciais, como:

  • Fornecimento de energia às células.
  • Formação de importantes estruturas biológicas.
  • Participação indireta na química relacionada ao DNA e ao RNA.

Embora moléculas como ribose e glicose já tenham sido encontradas em meteoritos, sua identificação diretamente no espaço representa um avanço importante para a astroquímica.

Como os astrônomos encontraram essa molécula

A descoberta ocorreu na nuvem molecular G+0,693−0,027, situada a aproximadamente 26.700 anos-luz da Terra, próximo ao centro da nossa galáxia. Para identificar a eritrulose, os pesquisadores utilizaram dois grandes radiotelescópios:

  • Yebes 40 metros, na Espanha.
  • IRAM 30 metros, também localizado na Península Ibérica.

A confirmação ocorreu após a identificação de 12 conjuntos independentes de linhas espectrais, uma espécie de impressão digital emitida pelas moléculas quando interagem com ondas eletromagnéticas.

Um dos maiores desafios dessa pesquisa foi reproduzir, em laboratório, o comportamento espectral da eritrulose. Como esse açúcar é extremamente sensível ao calor e absorve facilmente umidade, sua análise só se tornou possível graças ao uso de uma moderna técnica de vaporização a laser ultrarrápida.

Uma descoberta que surpreendeu os pesquisadores

Os resultados revelaram outro detalhe inesperado. Normalmente, quanto maior a molécula encontrada no espaço, menor costuma ser sua abundância. Porém, a eritrulose apareceu em concentrações entre oito e dezessete vezes maiores do que outros açúcares menores conhecidos com três átomos de carbono.

Essa observação indica que determinados processos químicos presentes na poeira interestelar podem favorecer a formação de moléculas mais complexas, contrariando parte das expectativas anteriores sobre a química do meio interestelar.

O que isso significa para a origem da vida?

A descoberta não demonstra que exista vida fora da Terra. No entanto, fortalece uma hipótese estudada há décadas: a de que diversas moléculas prebióticas podem ter sido produzidas no espaço antes mesmo da formação dos planetas.

Esses compostos poderiam ter sido transportados para a Terra por impactos de cometas, meteoritos e asteroides, enriquecendo o ambiente químico do planeta jovem e contribuindo para as reações que deram origem às primeiras formas de vida.

Além disso, o achado mostra que o espaço interestelar funciona como um enorme laboratório natural, capaz de produzir uma diversidade impressionante de moléculas orgânicas.

Uma nova peça no quebra-cabeça da química cósmica

O estudo publicado na Nature Astronomy, liderado por Víctor M. Rivilla e colaboradores em 2026, amplia significativamente o conhecimento sobre a química presente entre as estrelas. 

A identificação da eritrulose demonstra que açúcares relativamente complexos podem se formar naturalmente em nuvens interestelares, oferecendo novos caminhos para compreender como compostos essenciais à vida surgiram antes mesmo da formação da Terra. 

Embora ainda reste muito a descobrir, esse resultado aproxima a ciência de responder uma das perguntas mais fascinantes da humanidade: como começou a química que tornou a vida possível?

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes