Ventos de galáxias gigantes podem estar enriquecendo suas vizinhas com metais 

Vento da M82 transporta gás e poeira por milhares de anos-luz. (Imagem: Raios X: NASA/CXC/JHU/D.Strickland)

O Universo não é um espaço onde cada galáxia vive completamente isolada. Pelo contrário, matéria, energia e elementos químicos circulam entre galáxias e seus arredores, formando uma espécie de rede cósmica em constante transformação.

Uma análise de 1.433 pares de galáxias encontrou uma pista intrigante: algumas galáxias vizinhas apresentam uma quantidade maior de metais quando estão posicionadas em determinadas direções em relação a uma galáxia mais massiva.

A descoberta ajuda a investigar um processo fundamental da evolução galáctica: como elementos químicos produzidos dentro das estrelas conseguem escapar e chegar a outras regiões do espaço.

Um vento cósmico pode estar levando metais para longe

Quando astrônomos falam em metais, o termo tem um significado diferente daquele usado no cotidiano. Na astronomia, ele se refere a elementos mais pesados que hidrogênio e hélio, incluindo oxigênio, carbono, ferro e outros elementos fundamentais para a formação de planetas e da própria vida.

Esses elementos são produzidos por estrelas e podem ser lançados para o espaço por diferentes processos.

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Um deles envolve os chamados ventos galácticos, enormes fluxos de gás impulsionados por fenômenos energéticos dentro das galáxias. Esses fluxos podem transportar material para regiões muito além da galáxia onde foram produzidos.

O detalhe mais interessante é que esse transporte aparentemente não acontece igualmente em todas as direções.

A posição das galáxias revelou uma pista inesperada

Estratégias práticas para substituir farinha branca por opções integrais. (Imagem: Fala Ciência)

Os pesquisadores observaram pares de galáxias e compararam vizinhas localizadas em diferentes posições em relação ao eixo da galáxia principal.

O sinal apareceu especialmente quando as galáxias menores estavam alinhadas com o eixo menor da galáxia massiva. Nessa configuração, a quantidade de metais na fase gasosa das galáxias vizinhas era entre 14,6% e 24,2% maior.

As separações analisadas estavam entre 15 e 60 quiloparsecs, distâncias que correspondem a dezenas de milhares de anos-luz.

Isso é importante porque oferece uma maneira de observar, em dados reais, um fenômeno que já aparecia em simulações cosmológicas.

Um ciclo gigantesco mantém o Universo em transformação

A descoberta também ajuda a compreender o chamado ciclo bariônico cósmico, processo no qual matéria entra, sai e circula pelas galáxias e pelo meio que as cerca.

Uma galáxia forma estrelas. Essas estrelas produzem elementos químicos. Parte desse material pode ser devolvida ao espaço e, posteriormente, incorporada a outras estruturas.

Assim, os elementos necessários para formar novas estrelas, planetas e moléculas complexas não ficam necessariamente presos ao local onde surgiram.

Esse mecanismo também ajuda a explicar por que a composição química das galáxias varia ao longo do tempo.

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A observação foi comparada com uma simulação do Universo

O estudo publicado em 15 de setembro de 2026 na revista Nature Communications, liderado pelo astrônomo Cheqiu Lyu, analisou dados do Dark Energy Spectroscopic Instrument, DESI, e encontrou o excesso de metalicidade nas galáxias vizinhas alinhadas ao eixo menor das galáxias principais.

Os testes estatísticos indicaram um sinal mais fraco nas separações de 15 a 30 quiloparsecs e mais significativo entre 30 e 60 quiloparsecs. Os resultados também apresentaram concordância qualitativa com a simulação cosmológica IllustrisTNG.

Os autores interpretam os dados como consistentes com um cenário no qual fluxos anisotrópicos de material conseguem enriquecer quimicamente galáxias próximas. Ainda assim, o resultado deve ser entendido como uma evidência observacional compatível com esse mecanismo, e não como demonstração de que todos os metais encontrados nas galáxias vizinhas vieram exclusivamente desses ventos.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn