O HIV consegue desaparecer da corrente sanguínea sem desaparecer completamente do organismo. Mesmo quando a terapia antirretroviral mantém a carga viral controlada, pequenas populações de células podem carregar cópias do vírus em estado latente. Esse reservatório viral é um dos principais obstáculos para estratégias capazes de manter o HIV sob controle sem tratamento contínuo.
Agora, uma análise do ensaio clínico RIO trouxe novas pistas sobre o que acontece com esse reservatório quando pessoas vivendo com HIV recebem anticorpos amplamente neutralizantes durante uma interrupção cuidadosamente monitorada da terapia.
Anticorpos que permanecem ativos por mais tempo
O estudo avaliou dois anticorpos de ação prolongada, chamados 3BNC117-LS e 10-1074-LS. Essas moléculas pertencem ao grupo dos anticorpos amplamente neutralizantes, capazes de reconhecer regiões do HIV compartilhadas por diferentes variantes do vírus.
O ensaio envolveu 68 homens adultos que haviam iniciado a terapia antirretroviral durante a infecção primária ou em uma fase inicial. Os participantes foram distribuídos aleatoriamente entre dois grupos.
Um deles recebeu os dois anticorpos, enquanto o outro recebeu placebo. A interrupção da terapia ocorreu dentro de um protocolo clínico controlado, com critérios definidos para o retorno do tratamento quando necessário.
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Entrar no Canal do WhatsAppEssa diferença é importante: interromper a terapia antirretroviral por conta própria não é uma estratégia segura e não faz parte das conclusões práticas do estudo.
O reservatório viral entrou no centro da investigação
Os pesquisadores analisaram o DNA proviral do HIV presente em células CD4+, incluindo formas intactas e defeituosas do vírus.
Antes da administração dos anticorpos, os dois grupos apresentavam níveis baixos de provírus intactos nas células analisadas. Porém, durante o acompanhamento, surgiram diferenças relevantes.
Entre os participantes que receberam os anticorpos, houve uma redução dos provírus intactos entre o início da intervenção e o momento anterior ao retorno da replicação viral. Essa mudança não apareceu da mesma maneira no grupo placebo.
Além disso, os vírus que voltaram a circular em participantes tratados com os anticorpos apresentaram seleção de resistência ao 10-1074-LS, enquanto esse padrão não foi observado para o 3BNC117-LS.
A resposta do próprio organismo também entrou na equação
Outro resultado chamou atenção. Quanto maior era a sensibilidade inicial do reservatório aos anticorpos produzidos pelo próprio organismo, além da sensibilidade ao 10-1074, maior tendia a ser o intervalo até o retorno detectável do vírus.
Isso sugere que o resultado não depende exclusivamente dos anticorpos administrados. A imunidade humoral já existente também parece participar da dinâmica que determina quando o HIV volta a se multiplicar depois da interrupção do tratamento.
Os dados, portanto, ajudam a explicar por que alguns participantes permaneceram mais tempo sem apresentar rebote viral, enquanto outros tiveram o retorno do vírus mais rapidamente.
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Uma pista importante, mas ainda distante de uma cura
O estudo não significa que os anticorpos tenham eliminado o HIV do organismo. O reservatório viral permaneceu, e houve retorno da replicação em parte dos participantes.
No acompanhamento de 96 semanas citado pelos pesquisadores, 25% dos participantes do grupo que recebeu os anticorpos permaneciam sem TARV, contra 6% no grupo controle. Esse resultado pertence ao contexto específico do ensaio e não significa que a estratégia esteja pronta para substituir a terapia antirretroviral.
As infusões foram consideradas geralmente seguras e bem toleradas, e os eventos adversos relacionados ao tratamento mais frequentemente relatados foram fadiga, letargia e sonolência. Não foram registrados eventos adversos graves relacionados ao estudo.
O trabalho foi publicado por Marcilio J. Fumagalli e colaboradores em 15 de setembro de 2026, na revista científica Nature Medicine.
